sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Fisgas e catapultas

Algumas pessoas nascem com o rabo virado para a lua. Outras, como é o meu caso, nascem viradas para rabos do tamanho da lua.
Esta lamentação talvez se prenda mais com a minha falta de oportunismo do que, como é mais cómodo para mim pensar, uma brincadeira de mau gosto levada a cabo pelo Todo Poderoso, a Divina Sorte e o sempre inconveniente Destino. Eu acredito que tudo isto não passa de uma sádica forma de brincar dessas três criancinhas mimadas… Mas também pode acontecer que eu, simplesmente, não olhe para onde devo.
Começa já a ser irritante que quando me chamam a atenção com um “Olha agora!”, o “Agora” tenha sido há três segundos atrás. Porra! Nunca consigo ver as cuecas de fio dental a saltarem para fora dos jeans de uma miúda.
Quero dizer, até consigo… E muito frequentemente até… Mas nunca são miúdas jeitosas, daquelas que nos fazem ficar na dúvida sobre se devemos fixar o olhar no elástico que grita: “Olha p´ra mim! Olha p´ra mim!”, ou para as bem delineadas ancas que fazem com que as costuras dos jeans apertados pareçam prestes a rebentar, e que são a minha perdição. Nada me entusiasma mais que umas bonitas ancas… No caso de não haver nudez e ordinarices gritadas em tom de apoplexia, ancas!
Obviamente que a minha falta de oportunismo não é tão grande que eu nunca tenha visto um fio dental aparecer involuntariamente quando uma miúda se inclina, mas, fatalmente, são sempre miúdas em quem não se distinguem as ancas dos ombros. As calças parecem rebentar, sim senhor, mas porque já não aguentam tanta carne enfiada numas calças que deviam ser, pelo menos, quatro números acima. Assim, todos os meus vislumbres de cuecas de fio dental, vulgo “fisgas”, se assemelham mais a autênticas catapultas, daquelas utilizadas pelos brutamontes que fizeram as Cruzadas para derrotar os Infiéis, numa época em que a melhor arma de arremesso que existia eram calhaus do tamanho do Cristo-Rei. É revoltante…
Podem vocês estar a pensar: “Então, é porque os sítios que tu frequentas não têm gajas boas…”. Os que eu frequento normalmente… Não! Mas o mesmo acontece em todos os sítios onde eu entro casualmente, mesmo estando pejados de gajas jeitosas. Há uns dias entrei num café onde nunca tinha entrado. Mas como lá passo em frente todos os dias, sabia de antemão que era muitíssimo bem frequentado. E bem frequentado estava. Inspeccionei o local e reparei numa linda rapariga, com umas belas ancas, apertadas por umas calças azul claro, sentada sozinha numa mesa. Imediatamente sentei-me na mesa atrás, na esperança de que ela fizesse um movimento qualquer que deixasse antever o seu fio dental, como, sei lá, apanhar o isqueiro.
Pois sabem senhores, o que aconteceu? O namorado chegou e pediu para trocar de lugar para ficar de frente para a televisão! O isqueiro realmente caiu. Mas o único vislumbre de intimidade a que tive direito foi o elástico dos boxers do gajo, com um estranho padrão que se assemelhava a hélices de barco! Até quando me sento sozinho a um canto sou bafejado por coisas cuja existência preferia desconhecer: pensam vocês que se senta à minha frente alguma moçoila que me faça tirar os olhos da vitrine das gomas? Nem pensar… O trio de criancinhas mimadas insiste na pérfida brincadeira e presenteia-me com gajas que para além de não terem nada de interessante, ainda deixam antever, toda a sordidez que se esconde por baixo das calças. Ainda por cima, no caso destas, basta um pequeno movimento, como coçar o queixo, e logo aparece o fiozinho cor de rosa ou amarelo, esticado para além dos limites impostos pela física. Isto quando não são gajos de boxers ridículos e costas peludas… Já por três vezes o dono do café veio a correr atrás de mim porque eu fugi sem pagar a conta…
Uma destas noites, depois de mais um dia de trabalho, decidi ir com uns amigos “só jantar”. Fatalmente o jantar prolongou-se para uma noitada de copos e trambolhões pelo Chiado abaixo. Como estamos no mês de férias por excelência, todas as ruas e travessas pululavam de gente que conversava, ria, namorava, bebia, fumava, aspirava e… vomitava. Muitas eram raparigas, que se inclinavam com as mãos apoiadas na parede por essa Rua Nova do Almada ou Rua Diário de Notícias, deixando antever “fisgas” amarelas, cor-de-rosa, roxas, pretas, brancas, até um bonito padrão de tigresa… Mas para meu infortúnio, aquilo que poderia ser um espectáculo digno de se ver, não passou de uma “Lojinha de Horrores”, que se ia tornando mais horrenda à medida que descíamos o Chiado. Nem toda a quantidade de álcool ingerida conseguiu tornar mais agradável a horrível e dura – neste caso, a rebentar pelas costuras – realidade.
A determinada altura tive de fechar os olhos e tapar a cara com o braço. Até que ouvi os meus companheiros gritarem “Olha ali! Olha agora!”.
Infelizmente o “Agora” tinha sido há três segundos. Malditas criancinhas…

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Visita de um Serial Killer II - A sequela

Muitos de vocês, no mínimo dois, devem com toda a certeza estar recordados do drama que vivi há uns meses atrás, quando, sem que nada o fizesse prever, vi a minha gloriosa existência ameaçada pela perseguição irracional e neurótica que me moveu um perigosíssimo serial killer, daqueles que fariam tremer Freddy Kruger. Foram momentos de grande tensão os que passei sentado em frente ao computador, narrando os acontecimentos à medida que tudo se ia passando, por amor a essa nobre função de informar e numa tentativa deseperada de deixar um testemunho palpável que, na pior das hipóteses – o meu desmembramento – apontasse para o culpado, permitindo aos nossos super eficientes serviços de segurança e zelosas forças policiais descobrir e castigar o culpado – Toni o Falhado!
Devem estar recordados do sórdido auto retrato que este alucinado e perigoso Virtualpata (neologismo que define um psicopata do mundo virtual que é a Internet) traçava de si próprio: admitia ter roubado, mentido, ter feito batota, ser um esquisitóide e ter perseguido a mesma mulher durante mais de uma década. Nunca tinha estado preso mas, admitia que muito em breve o xilindró seria a sua próxima casa. Nunca havia roubado a vida a ninguém, mas o que se entendia pelo seu discurso é que andava a considerar essa opção. E quem seria a primeira vítima? Cá o meco… Fui, sem ser consultado, o vencedor deste obscuro casting em que ganhei a honra de ser elevado a actor principal – o herói.
E heróico fui! Não há que negá-lo. Basta lerem o post “Visita de um Serial Killer” de Fevereiro para confirmá-lo. Se não fosse pelo meu sangue frio – “Aqui assustei-me. Nunca matou, mas se calhar andava a matutar nisso…” -, clareza de raciocínio – “Gritei! Em pânico! O que é que ele quer de mim?” -, coragem – “Que maneira inglória de lerpar. Às mãos de um masturbador” – e vontade férrea de viver – “Gostava de ser enterrado com uma bonita lápide em mármore” – e toda uma juventude inspirada em filmes do Van Damme e Steven Seagal, não teria sobrevivido para contar a história e não passaria hoje de meia dúzia de postas embrulhadas em papel de alumínio, guardadas no congelador de Toni o Falhado.
Tudo se encaminhava para que eu conseguisse finalmente levar uma vida normal: desempregado de longa duração, pelo menos três divórcios, um filho criminoso e uma filha grávida sabe-se lá de quem…
Mas o mal não morre facilmente… E o meu pior pesadelo tornou-se numa terrível realidade… Uma noite, tendo acabado de colocar um post, bebendo uma caneca de leite com meia dúzia de Oreos, reparei na primeira mensagem que Toni o Falhado me havia deixado há uns meses, em tom ameaçador: “Hello”. Logo em baixo, o link para o seu obscuro e bafiento blog “Memoirs of a loser”. Da mesma forma que nos filmes de terror há sempre um idiota que ouve barulho na cave e, apesar do medo, vai espreitar, acabando invariavelmente com qualquer coisa espetada entre as costelas, eu cliquei nesse link… que chamava por mim, com uma voz doce, lírica, cantando o meu nome, como se fosse a luva de Freddy Kruger embrulhada num pano velho, guardada entre as cinzas da velha caldeira que lhe dava vida. O apelo foi mais forte que eu… Rodopiei no vácuo, na escuridão fria como uma noite de inverno, pelo pó dos séculos e da maldade, até que me decidi a abrir as janelas do quarto para deixar sair aquela poeira que saia do guarda fatos, e pude finalmente olhar em redor. O ambiente era-me assustadoramente familiar. De um verde enjoativo e nauseabundo, género estádio do Sporting, mas com menos amarelo. Ouvi ao longe aquela lenga-lenga cantada por uma voz infantil, que provoca no mais corajoso espírito uma vontade incontrolável de bater com os calcanhares no traseiro: “One, two, Toni comes for you… Three, four, better lock your door…”. Olhei em redor. Lá estava ele. Frio, impassível, como se matar gajos que acham que têm alguma piada, e por isso escrevem em blogs, fosse tão fácil como tomar o pequeno-almoço.
Que me dizia Toni desta vez? Que nunca matou ninguém mas… Estava tratar disso!!! – “Early in 2006 I bought a red and blue beta fish named Woody and much to my surprise, he or she is still alive”. Utilizando a mais macabra metáfora, dizia que tinha “comprado” – leia-se raptado - um “peixinho vermelho e azul” chamado Woody – provavelmente algum incauto distraído da blogosfera – e que, muito surpreendentemente, este ainda estava vivo! Toni havia começado por desmontar o pobre desgraçado pelas partes não vitais, chamando a isso, eufemisticamente: “my overall neglect of his care”, obrigando o pobre coitado a assistir ao seu próprio desmembramento. E tratava-o por “peixinho vermelho e azul”. Vermelho do sangue, está visto…. E azul porque se calhar era do Belenenses. Na volta era o gajo do Blog de Terapia. Acreditem senhores, aquilo é que é uma mente estranha, própria de alguém que passou por um desmembramento… Mas pelo menos deve ter-lhe deixado os braços para continuar a escrever…
E terminava: “I'm sorry Woody, from now on I'll make sure I feed you on a regular basis.”. Admitia não o alimentar regularmente, provavelmente para o ver num desespero faminto, alimentar-se de si próprio. Como fez o Hannibal Lecter, que deve ser o seu santo padroeiro.
Mais abaixo, continuava, com metáforas sobre “animais de estimação” a descrever outros actos macabros: “Against my better judgement and lack of financial stability, I bought an eight week old female beagle from a woman for $300. I had seen her classified ad on the internet”. “Comprou” por trezentos dólares um “Beagle” – aquela raça do Snoopy – fêmea. Vira o anúncio na internet. Não creio que seja necessário dizer mais: Viu na internet um classificado de alguma “menina”, e atacou, dando largas a todo o seu espírito de Jack o Estripador. Lilly era o seu nome. É arrepiante. Não acredito que uma dessas profissionais experientes caísse na esparrela deste gajo. Devia ser alguma “menina de dezoito anos, inexperiente”, acabadinha de chegar à cidade, com ambições de ser actriz ou bailarina, e que por dificuldades económicas, socializava com “cavalheiros de nível”, pedindo apenas que lhe levassem “vinte rosinhas”. Com certeza para animar o seu quartinho alugado, juntamente com as fotos de família em Moimenta da Beira. Vinte facadas foi que este animal lhe deu…
“Of course I also lied to my father and said I was given the puppy for free by a woman at work and I'd sell it just as soon as I could”. Para se justificar, disse ao pai que “o cachorro” tinha sido oferecido e que o venderia assim que conseguisse. Na fundo do sua mente obscura achou que seria mais aceitável dizer ao seu progentitor que estava a enveredar por uma carreira de proxeneta.
“The vet ended up giving me some drugs and other stuff I was supposed to give to her though I never did” – O “Veterinário” forneceu-o de drogas para a pobre desgraçada, mas ele não lhas deu… Pudera… Tomou-as ele! Todas!
E agora lá estava eu, frente a frente com aquele que se tinha proposto matar-me e que jurara vingança por não o ter conseguido. Senti o estômago embrulhado e uma humidade quente percorrer a zona que compreende o meu umbigo e os meus joelhos, enquanto Toni o Falhado berrava a plenos pulmões: “I once tried putting some foundation makeup on to see if it would cover up my zits”. Meu Deus! Tinha posto maquilhagem feminina para o ritual de matança do qual eu seria o protagonista… Eu sabia que o gajo era Travesti amador… “I basically wore it whenever I was trying to get laid or make a good impression on a woman”. Esperem lá! O gajo usava maquilhagem para sacar gajas?!… Como pode alguém ser tão distorcido?!! Ou ter tanto acne… Era às mão deste Gremlin que se masturba vinte e cinco vezes ao dia que terminaria a minha gloriosa existência, sem que a Humanidade tivesse oportunidade de apreciar todas as coisas grandiosas que eu poderia dar-lhe: a continuação deste blog, tão cheio de talento e eloquência, o meu equilíbrio mental a servir de contrapeso a toda a loucura que nos rodeia, o meu esparguete com nada… Fechei os olhos e preparei-me para o inevitável: uma morte horrenda às mãos de Toni o Falhado, que nunca matara mas que estava mesmo, mesmo prestes a começar, e só não foi mais cedo porque eu escapei, e que tinha, para além de requintes de malvadez, mau hálito, problemas intestinais e montes de borbulhas.
Só espero que ele não me descreva depois como “Pee Wee a Lagartixa”.
Vocês os dois ainda se lembram dos meus últimos desejos, certo? Se não, vão ver, Porra!
Logo agora que a minha pasta XXXX já tinha a bonita soma de 5,8 Gygas…

Depois deste brutal e comovente testemunho, nada aconteceu.
O autor continua vivo e de boa saúde, depois de ter trocado de calças. E depois trocou-as outra vez.
Está a planear fazer deste drama uma Trilogia.
Toni o Falhado, que nunca matara mas que estava mesmo, mesmo prestes a começar, e só não foi mais cedo porque o autor insiste em escapar, continua a monte, congeminando planos de vingança.
Os 5,8 Gygas de XXXX já foram gravados para uma pen drive. Só para prevenir…

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

O tamanho interessa

Ultimamente tenho recebido algumas queixas respeitantes ao tamanho dos meus posts. Já quatro ou cinco pessoas se queixaram que os textos que aqui coloco, autênticas pérolas de sabedoria, são demasiado grandes e que o mero vislumbre da sua dimensão provoca neles um arrefecimento do interesse.
“Tenho a certeza que são muito giros mas… são tão grandes… e ao fim de um dia de trabalho…”.
Como se alguém lhes exigisse que, para além de os lerem, fizessem uma cópia integral dos textos como trabalho de casa para o dia seguinte. Isto também não é propriamente "Os Lusíadas". Mas por mim, tudo bem. Quando isso acontece, olho para essas pessoas, encolho os ombros, e continuo a escrever, passando para a página seguinte.
Como devem calcular, não vou limitar o tamanho do serviço público que aqui presto, de forma altruísta, por causa de meia dúzia de preguiçosos mentais que nem sabem apreciar o bem que lhes faço. Aliás, é uma questão de matemática, que ela para isto ainda serve: se existem cerca de seis biliões de pessoas no planeta e só uma reles meia dúzia se queixa, é porque a maioria, ou seja cinco biliões e tal de almas, aprecia e concorda com o tamanho dos meus posts… Se calhar até os desejariam maiores… Mas não se queixam. Ora, posto isto, tenho simplesmente a dizer a esses cinco ou seis calões: aguentem! Que raio! Quem manda neste estaminé sou eu! Isto não é uma democracia. E mesmo que fosse, a maioria de seis biliões, descontados os cinco detractores, ganharia. Os textos vão continuar a ter o tamanho que eu decidir. Imaginem que cada um dos meus textos é uma sopinha de massa. Em vez de uma tigela, comem duas… ou quatro.
Sim, que eu nem sequer me vou chatear tentando agradar a uma minúscula minoria tão mentalmente obesa que não mexe os neurónios para ler algo mais comprido que o título de um filme só porque “o dia foi tão cansativo”. E mesmo os títulos dos filmes sofrem, às mãos desses cérebros ociosos, autênticos massacres e desconfigurações. Ainda me lembro que quando estreou “A Paixão de Cristo” a pergunta que se impunha era “Já viste a Paixão?”. Quinze letrinhas (espero não ter contado mal…). Nem isso respeitaram. Ainda por cima, era uma pergunta que dava azo a alguma confusão, porque para além d´ “A Paixão de Cristo”, houve uns anos antes outra Paixão: a de Shakespeare. De maneira que, quando algum preguiçoso de língua me perguntava, pouco tempo depois da estreia, ainda a minha fé não me tinha arrastado a uma sala de cinema, se eu tinha visto “A Paixão”, havia sempre um diálogo digno de um gag dos Monty Python:
- Pá! Já viste “A Paixão”?
- Vi pá. Não achei muita piada à Gwyneth Paltrow vestida de gajo…
- O quê? Era ela o Diabo? Tchhh… Ganda maquilhagem…
- Não. Ela era “A Paixão”.
- Ai era ela? Pensei que fosse a outra gaja... A italiana… A boazona…
- Não. “A Paixão de Shakespeare” era ela.
- Shakespeare?.. Que apóstolo era esse?
E isto durante meses a fio, até que finalmente, e para acabar com mal-entendidos, comprei na feira uma cópia pirata d´ ”A Paixão desse gajo que já me estava a chatear…”. Infelizmente a cópia era daquelas maradas, que ficam sem imagem e sem som antes do fim… Portanto ainda hoje não sei como aquilo acaba… Alguém sabe? O gajo morre?
E "Os Piratas das Caraíbas" que passaram a ser simplesmente "Os Piratas". "Os Piratas" de onde senhores? Das Caraíbas? Dos Confins do Mundo?... Ahhh...
Concluindo, e para acabar com discussões, os textos continuam grandes e vocês que se lixem… Este espaço destina-se a pessoas mentalmente ginasticadas. Não quero saber se quando chegam ao fim não se lembram do início. Aliás… Pergunto: quando acabam de ler a lista telefónica, também mandam uma cartinha ou um e-mail para o autor a queixarem-se que quando acabam de ler a morada do último Zeferino, já não se lembram do código postal do primeiro Anacleto? Não me parece… O tamanho dos meus textos tem a muito útil função de ajudar à selecção natural dos meus leitores: afasta os que não têm categoria para entrar neste estaminé. Funciona como a fachada de um restaurante muito chic: afasta os pelintras que já sabem que não têm figura, status e dinheiro para lá entrar… Peço desculpa se se sentem ofendidos, mas é assim que isto vai funcionar. Não há livro de reclamações… Era só o que me faltava agora...
É a primeira vez que alguém se queixa de algo meu por ser grande…
Se quiserem leiam só os títulos, a ver se eu me importo… Arranjem monitores maiores. Assim só têm de fazer Scroll cinco vezes... O meu talento não pode ser reduzido, comprimido, amarfanhado e resumido a meia dúzia de linhas. Não seria eu. Seria como passar dos preliminares directamente para o cigarro (bom, isto talvez já seja…) ou do noivado para o divórcio. Não seria natural.
E só por causa das tosses, tomem lá mais este parágrafo, com mais umas quantas letrinhas e palavrinhas, só para juntar palha suficiente, mesmo caindo no perigo da redundância, para perfazer um total de oitocentas e vinte e cinco palavras e quatro mil seiscentos e noventa e três caracteres.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Dispendioso SLB


O primeiro jogo da era Camacho à frente do Benfica terminou num desolador empate frente ao Vitória de Guimarães. Foi um jogo marcado pela grande afluência de público ao estádio da Luz, por palmas à equipa e treinador no fim do jogo e mais um escandaloso falhanço do Nuno Gomes em frente à baliza.
Mas este jogo marcou também o início de uma nova era no Clube e no seio da sua massa adepta: a entrada à Petit na era do Marketing e da exploração da imagem do clube. Nada de tão amador e barrasco como as famosíssimas “Operação Coração”, “Operação Fica Amaral”, ou, mais recentemente, a campanha de venda de Kits de sócio que o presidente do clube jurou a pés juntos que se não atingisse o número de vendas a que se propunha, demitir-se-ia… Aliás, basta lembrar que o cérebro por detrás das duas primeiras, continua, muito merecidamente, no xilindró…
A realizar operações, que sejam a sério, que com o Glorioso, não se brinca! E desta vez é a sério… Esta iniciativa fará do Benfica um clube ao nível “do que se faz lá fora”.
A partir de agora, de cada vez que o Benfica marca, são golos em carteira!
Passando a explicar: o Benfica, em parceria com um dos seus patrocinadores, que eu não vou publicitar aqui de forma gratuita, direi apenas que dá o nome ao centro de estágio do clube e cuja sigla começa em “C”, acaba em “D” e lá pelo meio tem a letra “G”, aproveitou o renascer da fé que o regresso desse bem amado espanhol proporcionou, para oferecer aos seus sócios e adeptos a possibilidade de terem um cartão de crédito de marca Benfica. É verdade. Agora, de cada vez que algum benfiquista quiser comprar alguma coisa a crédito – leia-se sem dinheiro – poderá, com imenso estilo e de uma forma muito “cool”, sacar de um cartão vermelho, com uma águia – uma águia a sério – estampada, de perfil, como se fosse um hieróglifo egípcio, e brandi-lo na cara de todos os ateus e infiéis, como se de uma bíblia com banda magnética se tratasse…
Não faço ideia de qual será a TAEG desta nova prova de grande Benfiquismo e amor ao clube, mas que raio, isso interessa? Conhecendo alguns dos benfiquistas que eu conheço, atrevo-me a dizer que não há Cobrador de Fraque que se atreva a ir cobrar o que quer que seja por respeito a essa grande nação composta por seis milhões (ou serão vinte?) de fiés devotos, que, munidos de cartão de crédito, substituem o fervor religioso pelo ímpeto consumista… A bem do Benfica, claro… As peregrinações a bandalheiras oportunistas, como Fátima, onde se gasta “o nosso rico dinheirinho em quê?!! Em velas senhores!!”, já eram… Agora as peregrinações são feitas à Media Markt e ao Colombo onde se gasta “o rico dinheirinho deles” em televisores, sistemas surround e algum livrito que “aquela loja de ares condicionados também vende”… Mas o Deus Benfica é um Deus generoso… E recompensa a fé inabalável dos seus fiéis… consoante o valor da dívida, claro está. Mas não deixa de ser generoso. Ao contrário de algumas seitas religiosas, que se aproveitam da boa fé dos seus fiéis, cravando-lhes dez por cento dos seus rendimentos. Onde é que já se viu ter de apresentar I.R.S., comprovativo de morada e três recibos de ordenado para poder frequentar uma igreja? Mas acabemos com as metáforas de cariz religioso… O que o patrocinador do Benfica se propõe fazer é o seguinte: por cada golo que o Benfica marque, abate no valor da dívida um valor em euros. Valor esse que dependerá do valor da dívida ou do movimento do cartão. Assim, um sócio do Benfica que tenha uma dívida ou movimente no seu cartão qualquer coisa como… mil euros, terá ainda mais motivos para saltar de alegria a cada golo do Nuno Gomes, já que esse acontecimento, cada vez mais raro, lhe valerá um abatimento na dívida de… dois euros!
Dois euros por golo! No caso de a dívida ser algo entre os cento e cinquenta e os trezentos euros, cinquenta cêntimos para sócios com quotas pagas, quarenta para não sócios… Ora, eu sei que quem dá o que pode a mais não é obrigado, e que não se deve desdenhar o que nos é oferecido, mas acho que esta soberba iniciativa pode vir a ter efeitos contraproducentes: todos nós sabemos que os avançados do Benfica, em particular o número vinte e um, não lidam bem com a pressão. Lembram-se quando o dito avançado ficou de pagar uma conta a uma conhecida cadeia de Fast Food, cujo nome começa em "Mc", acaba em "´s", e pelo meio tem as letras "Donald", com golos? Pois… até hoje os desgraçados continuam à espera… Já se fala em penhorar-lhe a casa… Isto é muita pressão para o pobre coitado, que daqui para a frente, sempre que falhar um golo, não estará apenas a contribuir para a ineficácia da equipa, mas a meter a mão ao bolso de todos os Benfiquistas. Convenhamos que ter o terceiro anel a chamar gatuno a alguém que não seja o árbitro é uma ideia um pouco estranha, mas que se tornará realidade muito em breve. Os adeptos passarão a exigir goleadas todas as semanas "porque a porra da garrafa foi cara, pá...". E, como se viu esta semana, já é difícil marcar um, quanto mais goleadas...
Agora entendo aquela Flash Interview em que o dito jogador exigiu tranquilidade…
Mas não deixa de ser uma ideia soberba, que será decerto vergonhosamente imitada pelos clubes rivais: o Sporting talvez se prepare para oferecer dois euros cada vez que a equipa vencer um jogo da Liga dos Campeões - “Três pontos que valem dois euros”. E o Porto oferecerá a mesma quantia de cada vez que um dos seus jogadores seja admoestado com um cartão amarelo – “Os nossos cartões valem o seu cartão”.
É claro que semelhante iniciativa só poderia provocar inveja e escárnio aos adeptos dos clubes rivais. Já ouvi descrentes afirmarem, em tom jocoso, que o número de golos não vai chegar sequer para cobrir o valor das quotas... mas vozes de burro, não chegam à Luz...
E enquanto não chega o momento da verdade, apressem-se benfiquistas… nunca se sabe se a próxima contratação não será o novo Eusébio!

Mais vale um sóbrio anónimo...

Uma das coisas que a minha religião proíbe é beber cerveja sem álcool. Ou com sabores a lima, limão, groselha e por aí fora. Na nossa lista de pecados mortais, essa tentação ocupa um austero vigésimo sexto lugar, entalada entre o “Sexo antes do casamento” e o “Faltar às reuniões de condomínio, mesmo não tendo nada melhor para fazer”. E nós, fiéis ovelhinhas, cumprimos.
Mas, que raio, somos humanos e, há que admiti-lo, propensos ao pecado. Perdi já a conta ao número de noites em que não consigo pregar olho, rebolando na cama atormentado pelas imagens que me vêm à cabeça de uma bela e fresca cerveja sem álcool ou sabendo a gasosa. Sofro com a tentação do pecado, qual Padre Amaro ouvindo à noite, no silêncio da casa, o rumor de Amélia despindo o seu vestido no quarto de baixo – estou a falar do livro e não do filme, uma vez que a Soraia Chaves passa muito pouco tempo vestida e, portanto, sem necessidade de se despir...
Este tormento é apenas comparável à provação por que passei quando, no meu intímo, me questionava sobre como seria cometer o pecado número onze... Felizmente fui forte e, posso hoje afirmar com orgulho desmedido, nunca ter assistido a um concerto dos Fingertips.
Mas temo que este caso seja mais grave... Um dia cederei à tentação de passar uma noite a emborcar cerveja e não me enganar na casa ao fim da noite. Oh, vergonha suprema! Chegar a casa sem os joelhos das calças rasgados pelas pedras da calçada... Uma noite inteira sem vomitar nos pés de ninguém... Sem tentar engatar miúdas esguias e firmes, embrulhadas em enormes casacos e malas, que no dia seguinte me apercebo serem apenas bengaleiros... Se ao menos houvesse forma de pecar sem que os outros se apercebessem... Mas não! Os génios do Marketing lembraram-se de fazer rótulos tão distintos da cerveja com álcool, que quem cometer a ousadia de beber uma sem álcool passa a ser olhado como se fosse algum leproso, ou, pior ainda, fã dos Fingertips. Por que raio não fazem tudo igual? Mesmo que a minha religião o permitisse, eu nunca iria querer que toda a gente se apercebesse que a quantidade de cerveja que eu bebo, seria, ao fim da noite, tão inofensiva como o Nuno Gomes em frente a uma baliza vazia. Ninguém deseja isso. Mais importante que ser, é parecer. Dá menos trabalho que “ser” e permite-nos ter a mesma “coolness”. Poderíamos passar uma noite rodeado de amigos tão ébrios que clamassem pela invasão dos espanhóis ou Paulo Portas para Primeiro-Ministro, e não ser o único desgraçado a parecer um virgem num bar de alterne (mera figura de estilo, eu também não sei o que isso é...).
Tudo seria tão mais simples. De vez em quando soltávamos uma alarvidade qualquer que demonstrasse o nosso estado borracho: “Se eu fosse treinador do Benfica dormia descansado!”. Dançávamos de forma estranha, de olhos fechados, abanando apenas o tronco e segurando a garrafa de forma romântica, afagando-lhe o gargalo, ao som de Prince ou dos Kiss... Dessa forma seria possível manter a dignidade, sem a manchar com comentários mesquinhos feitos por terceiros nas casas de banho ou enquanto esperamos para pagar... Não estaríamos bêbados, mas poderíamos “parecer” bêbados... E isso, salvaria a nossa honra.
Se bem que a ideia de haver no Estádio da Luz uma bancada “Sagres Zero” ou “Super Bock Green” já faz pulular na minha cabeça toda uma série de piadas e trocadilhos.
Para além do mais, esta solução dos rótulos indistintos ainda nos daria a maior vantagem de todas, o ás de copas, o Full House dos bebedores alarves de cerveja: nunca mais seríamos o primeiro a dizer “não tragas para mim”. Nunca mais eu seria o primeiro desistente, mas sim o “Último Homem a cair”. Seria um David Crockett defendendo o Álamo, matando mexicanos até à última bala, vendo os meus companheiros de armas tombarem, um após o outro. OK, vocês os dois poderão estar a pensar “mas... estarias a mentir...”.
Sim, estaria. Mas na nossa lista de pecados, a mentira ocupa o equivalente à classificação do Tiago Monteiro num Grande Prémio de Fórmula 1: muito lá para o fim, entalada entre o “Sexo durante o casamento” e o “Mentir às Finanças”. Portanto também não é isso que me vai levar ao inferno...
Mas beber cerveja sem álcool sim. Dá direito a toda uma eternidade passada no reino de Satanás, rodeado por uma monumental orgia de vícios e mulheres lascivas com pouca ou nenhuma roupa. E eu não quero isso para mim...
Apelo portanto aos senhores do Marketing das cervejas, cobardemente escondido no meu anonimato: Façam rótulos iguais para todas as cervejas. Assim só a rapariga que me atendesse no bar ficaria a saber o quanto eu seria pecador. Mas até daí poderia vir alguma coisa boa: há miúdas que se pelam por “Bad Boys” e eu, passando uma noite inteira a emborcar cerveja com sabor a papaia seria, aos seus olhos, o supremo pecador, o fruto proibido e perigoso... Desde que façam tudo com rótulos iguais!
Se eu tiver de beber cerveja sem álcool, que seja numa garrafa que não tenha um rótulo que faça de mim um espectáculo de anormalidade e que grite: “Ei! Olhem para mim! Adoro fazer sexo com a minha mulher enquanto ela dorme!”. Sim, porque cerveja sem álcool é isso mesmo: o sabor até é parecido mas falta qualquer coisa que não sabemos o que é... Bem... Quero dizer... Deve ser...