segunda-feira, 15 de outubro de 2007

The office - Versão portuguesa

Tenho um colega que passa a vida a armar-se em puto giro e com piada.
É pior que um pescador: “Eu saquei esta, comi aquela, sou isto e faço aquilo…
Ele realmente faz: azucrina o juízo à malta, e já ninguém o consegue aturar. Já pensámos em denunciá-lo como terrorista, molestador de velhinhas ou até membro do Gang do Multibanco. Anda tudo fartinho deste gajo… Até já demos o número de telefone dele a um programa de apanhados da rádio.
Tem uma gargalhada irritante. Faz lembrar as hienas do “Rei Leão”.
Conta piadas parvas e ri-se a seguir, alarvemente. Por vezes solta perdigotos.
Isto não seria tão grave se o gajo não se tivesse virado na direcção do meu azimute, na passada Sexta-feira.
Ora, eu sou um gajo porreiro e alinho nas brincadeiras, como tal, passei a tratá-lo por minha “Bitch”: “Cala-te bitch”, “Não falas assim com o teu marido, bitch!” e “Estás a precisar de levar umas chicotadas, minha bitch!” - em tom de brincadeira, claro... na esperança de que o gajo me largasse da mão...
O problema é que este gajo, para além de ser melga, também sofre de falta de originalidade, e não arranjou por si próprio, respostas à altura para o nosso confronto. E adoptou, como seus, os meus insultos. De forma insultuosa, diga-se. De cada vez que passava por ele, lá tinha de ouvir uma das minhas piadas vindas de boca alheia, o que, convenhamos, pelo menos para mim é chato!
A mim, podem acusar-me de tudo, menos de falta de originalidade. Mesmo nos insultos.
Já estava tão farto de o ouvir, que, num acesso de imaginação virada para o insulto, sentei-me ao computador e esgalhei em dois minutos um dístico em tamanho A4 para colar à socapa no pára-choques traseiro do seu Ford Focus.
Foi na Sexta-feira à tarde, portanto hoje – Segunda-feira - vinha preparado para ter de o aturar por causa da piada.
Qual não foi o meu espanto quando, ao chegar de manhã, vejo que o papelucho de tamanho A4 e bem colorido, ainda se encontrava colado ao pára-choques.
O gajo passou o fim de semana todo com aquilo pespegado no carro e nem ele nem a família deram pela coisa…
Estou a imaginá-los a entrar no parque subterrâneo de uma superfície comercial, com aquela treta colada no pára-choques, de vidro aberto, ouvindo a rádio dos grandes êxitos dos anos oitenta, bem alto, como eu sei que é seu hábito.
Ou parados num semáforo… Será que não acharam estranho a risota vinda dos outros carros? Ou alguma eventual buzinadela?
Mas comecei a achar que exagerei na retaliação… E considerei seriamente a hipótese de retirar o papelucho colorido da traseira do seu carro, e não dizer nada...
Até entrar no escritório!
A primeira coisa que ouvi, depois de ligar o computador, foi a voz do energúmeno: “Então ó bitch? O fim de semana foi bom? Divertiste-te muito, ó Bitch?


A diversão começou agora… Bitch...

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Pop quiz

Vocês lembram-se daquelas revistas para raparigas adolescentes que haviam há uns anos atrás, que davam pelo nome de “Ragazza”, “Teenager”, “Super Teen”, “Teenager Borbulhenta” e por aí fora?
Eu posso afirmar sem ponta de exagero, que não tive uma namorada ou pseudo-namorada, entre os meus quinze e dezanove anos, que não torrasse dinheiro nessas trampas. Eu bem lhes dizia: “Mas ó fofucha… Com esse dinheiro compramos duas litrosas e um maço de tabaco…”.
Mas qual quê… Assim que passavam em frente a uma papelaria, lá entravam elas, de sorriso na cara e olhinhos brilhantes, a comprar revistas que traziam na capa o Johnny Depp, o Brad Pitt e os New Kids on the Block.
Eu raramente gastava o meu rico dinheirinho em revistas, mas quando o fazia, era em revistas com artigos sobre a Pamela Anderson ou a Cindy Crawford.
Mas lia os artigos, depois de ter dissecado as fotografias. Elas não. Não ligavam puto ao que lá vinha escrito! A primeira página em que elas abriam a sacana da revista, era a dos testes!
O que eu sofri com esses malditos testes da “Ragazza”!

Porque é que nunca puseram uma notinha de rodapé, em tom de advertência, que as informasse que aquilo era tudo tanga, e que eu não era – ao contrário do que dizia o resultado do teste “Que espécie de namorado é o teu?” – alguém que tão depressa estava com ela, como a seguir corria para os braços da sua melhor amiga?
Por mais que tentasse evitar, obrigavam-me sempre a responder às perguntas.
Eu bem tentava escolher as respostas que, conjugadas no final, me pareciam menos prováveis de dar problemas. Em vão. Mesmo fazendo uso de toda a capacidade de antecipação, para escolher aquelas que eu julgava serem as respostas que melhor as contentariam - mesmo não sendo sincero - saía-me sempre o tiro pela culatra, e o resultado variava sempre entre o “Ele até gosta de ti, mas…” e o “Começa a procurar na tua turma um colega interessante… Nunca se sabe…”.

Aquela maltinha das revistas lembrava-se das perguntas enquanto ia à casa de banho, e eu é que levava depois com o “Tratamento de silêncio”!
Ora, como agora não tenho de dar cavaco a quem quer que seja, já não me chateia nada fazer esse tipo de testes. Não os da “Ragazza”, como é óbvio. Suponho que iria parecer suspeito um gajo da minha idade entrar numa papelaria para comprar a “Ragazza”. Imagine-se o que a senhora do balcão iria pensar. Mas falaram-me há uns tempos atrás de uns testes do site da Rádio Comercial, que me pareceram interessantes, e que, vindos de uma entidade tão respeitável e antiga do meio radiofónico português, só podiam ser uma coisa séria.
Entrando no site da dita rádio, deparei-me imediatamente com uma lista de testes, que pelo seu título, logo me deram a entender ser uma coisa assim, científica. Assim uma espécie de Testes de Rorschach
Mas diferentes.
O primeiro a chamar-me a atenção foi: “Qual a sua probabilidade de ficar milionário?
Mas nem me preocupei com este, uma vez que até já sei a resposta...
Depois havia o “Se fosse uma música do Marco Paulo, qual seria?”. Este não fiz, porque sinceramente, acho que prefiro não saber…
Mas fiz o “Se fosse um one hit wonder dos anos oitenta, qual seria?”.
Este sim, interessou-me! Respondi a tudo sem mentir!
E sabem vocês qual foi o resultado?
Você é "Take On Me" dos A-Ha (1985):” Ah-ah, pois sou…
Estes testes são de uma precisão assustadora! Vejam lá se os senhores da Rádio Comercial não adivinharam, através das minhas respostas, que esta é realmente uma das minhas músicas (e vídeos) preferida? Eu delirava com o vídeo, quando era miúdo. Ainda hoje acho aquilo delicioso, e sempre que o vislumbro na televisão, colo-me ao ecrã, como uma adolescente sonhadora e borbulhenta.
E de seguida, passam a dar a explicação: “O seu lema é o de nunca perder a sua pose sempre muito cool. Gosta de impor respeito naqueles que o rodeiam e é capaz daqueles olhares que congelam (no bom ou no mau sentido) o seu alvo. De espírito prático mas por vezes demasiado durão.
E eu que pensava que o “Take on Me” era apenas uma banda desenhada musical… Mas não… O indivíduo “Take on Me”, afinal é um gajo de uma coolness incomparável e de olhar profundo, capaz de desarmar a mais dura carapaça de indiferença…
Gostava de saber é se resulta com soutiãs…
Vou começar a treinar em frente ao espelho, esta minha recém-descoberta capacidade, para que da próxima vez que sair à noite, nenhuma miúda resista ao meu magnetismo animal, e todos os gajos se afastem para eu ser atendido primeiro no bar.
O teste seguinte consistia em descobrir que mítica série dos “Eighties” eu seria. Pois bem. Agarrem-se às cadeiras…
Eu seria… “The A Team”!
Você gosta de trabalhar em equipa. Amigo dos seus amigos, tem grande espírito de camaradagem e adora dar uma boa gargalhada. Porém, para quem está fora do seu grupo de amigos você acaba por parecer um bocado bizarro. Oh, mas o que é que há de mal numa explosãozita inocente para animar o dia?
Ora bem… Bizarro? Tanto também não… Vamos lá, só porque costumo ser apanhado a conversar com o Homenzinho Verde que vive na minha cabeça, não é motivo para insultos. Além disso, eu não percebo pevas de explosivos…
O que é, é que a malta não compreende…

Mas nas sábias palavras de B.A. Baracus – o grandalhão de “The A Team” – “I pitty those fools”!
Um outro teste que me pareceu deveras interessante foi: “Que frase de engate você seria?
Bom… aqui aprendi uma lição de vida. Todos os anos que passei a tentar engatar miúdas com frases como: “Essa blusa ficava um espanto espalhada pelo chão do meu quarto” e “Não tenho uma Pick-up, mas ficarias espantada com o que se consegue fazer no banco de trás de um dois cavalos”, foram um absurdo de tempo perdido, porque segundo o resultado, a frase de engate que melhor me define, tendo em conta a minha timidez, é: “Estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo, esta noite” – e continua - “você é aquilo que pode ser considerada uma pessoa fofinha.... A melhor técnica de engate é ser simpático para o seu “alvo” e estar disposto a conversar. Mas conversar MESMO!
Claro que seria conversar MESMO! Como é que se conversa NÃO MESMO?
O Fofinho também me surpreendeu. Nunca me chamaram fofinho… Quando muito um “Olha mais um engraçadinho…” E a parte do “Esta noite” também me parece exagerada… A noite toda?
Não bastam, sei lá, quatro ou cinco minutos da tal felicidade?
Que música romântica você seria?”. Foi com enorme tristeza que descobri que não sou do género “Na minha cama com ela”. Ao invés sou um gajo “She” de Elvis Costello.
Para si uma relação é uma autêntica montanha russa, sempre entre os momentos de felicidade e os momentos negros. Você nem sempre sabe o que esperar da pessoa amada... mas aprendeu a gostar do friozinho na barriga causado por tantas incertezas.
Montanha russa… Vamos lá… Eu tenho o estômago fraco senhores. Acho que desta vez se enganaram e o friozinho no estômago é falta de comprimidos para o enjôo.
Vá lá minha gente, tudo a correr a fazer os testes.
Nunca se sabe se não há por aí a minha alma gémea:
uma B.A. Baracus de olhar gélido, que seja fofinha e goste de fazer explodir merdas ao som... disto...



http://radiocomercial.clix.pt/animar/testes/hit_80/index.aspx

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Cães tarados

Aconselha-se a audição da Banda Sonora durante a leitura


Eu adoro animais. A sério. Desde miúdo que deliro com tudo o que sejam cães, pássaros, hamsters, peixes, enfim, tudo o que possa ser domesticado e trazido por casa. Já não gosto tanto de baratas, mas isso é devido à dificuldade em mantê-las dentro de jaulas, que há uns anos atrás levou a que toda a minha família tivesse de agarrar à pressa na trouxa e evacuar a casa para que a equipa de desinfestação pudesse trabalhar à vontade.

Desde aí fiquei proibido de fazer criação de tudo o que pudesse ser confundido com azeitonas. O que eu gostava mesmo era de ter um Koala. Adoro aqueles bichos de ar sonolento e pachorrento, mascando folhas de eucalipto, para depois tornar a adormecer. Acho que seria mesmo o animal de estimação mais adequado para o meu ritmo de vida: sem passeatas à chuva às seis da manhã, sem presentes em cima dos tapetes ao chegar a casa, sem sapatos roídos, sem barulhos que incomodassem os vizinhos e sem aquelas épocas do ano em que os bichos se comportam como alguns gajos que eu conheço, depois de saírem de uma sessão no Animatógrafo: o cio.
Eu sei que a natureza não deve ser reprimida, e não sou nada a favor da castração dos pobres animaizinhos… Os domesticados. O problema são os rafeiros. Esqueçam “A Dama e o Vagabundo”.
Eu sei por experiência própria que não há esparguete no mundo que leve aqueles bichos a fazerem as coisas de forma romântica, civilizada e, acima de tudo, discreta. Eu cá também gostava de dar uns urros e uns guinchos valentes, mas convenhamos… e os vizinhos?

-“Olha Manel, parece que o rapazola do andar de cima conseguiu finalmente enganar alguma…”
-“Eia o que pr´áli vai…”

-“Ouves o que ele ´tá a dizer? Ouves? Baixa o som da televisão e vê lá se aprendes alguma coisa…
Acho que está na altura de alguém tomar providências relativamente a este assunto, e arranjar locais próprios onde os animais rafeiros possam libertar toda a sua líbido. Assim uma espécie de salas de chuto, mas sem drogas, sem pessoas e sem profilácticos (a não ser que hajam voluntários para os colocarem nos animais entusiasmados). Desta forma evitar-se-iam situações como a que me ocorreu há uns dias atrás: numa das minhas raras folgas, combinei ir ter a casa de um amigo para ir buscar uns cds.
Ora, esse meu amigo vive num prédio em cuja entrada existe uma escadaria, ladeada de canteiros. O que faz com que as malditas escadas constituam mesmo o único acesso à porta do sacana do prédio. Quando me preparava para começar a subir as escadas, deparei-me com um espectáculo digno de um filme porno dos anos setenta. Daqueles com o John Holmes e a Cicciolina – eu nunca vi nenhum, mas pelo que me contaram devia ser mais ou menos assim…

Havia uma cadelinha de tamanho médio sentada num dos degraus, de ar desamparado, que de imediato me comoveu. Instintivamente, levantei o braço e inclinei-me para lhe fazer uma festa, eis quando, vindo dos degraus mais acima, ouço um coro de latidos e rosnanços que me puseram imediatamente em sentido. Olhei discretamente pelo meio da franja, e dei de caras com uma autêntica matilha de cães, de uma tão grande diversidade que mais parecia um concurso: havia-os grandes, pequenos, escuros, claros, pintalgados, de ar feroz, aspecto parvo… Parecia que toda a diversidade canina do planeta se havia reunido em celebração. E estavam irritados. Imediatamente, comecei a recuar, pensando vagamente que se calhar já não gostava assim tanto de animais. E a matilha começou a descer as escadas. Cada vez mais depressa. Fechei os olhos e preparei-me para ser dilacerado por mandíbulas ferozes que lambem os seus próprios testículos… Mas nada aconteceu. Abri os olhos e deparei-me então com uma autêntica orgia de patas, rabos, focinhos e coleiras, num frenesim canino como eu nunca tinha visto. Lamentei pela pobre cadelinha, vítima daquela violação em massa, perpetrada por uma dúzia de cães raivosos e tresloucados, quando de repente, me apercebo que afinal, a “bitch” não era ela! Antes pelo contrário. Aquela cadelinha que me havia despertado tanta simpatia, revelava-se agora uma meretriz destruidora de lares, aviando um a um todos os cachorros do grupo. E por “aviar cachorros” não me refiro a “batatas fritas e maionese”. Aquilo parecia uma orgia Romana! O sacana do esparguete devia estar picante como o caraças! A cada trinta segundos um dos cães de ar ameaçador, saía do maralhal de rabos e focinhos, com um tamanho ar de felicidade, e língua de fora, que acabei por me sentir embaraçado e, até um pouco voyeur. Mas como eu precisava de subir as escadas, não tive outro remédio senão virar as costas para lhes dar privacidade, e esperar, de mãos nos bolsos, assobiando “Touch Me” da Samantha Fox, e olhando disfarçadamente para o céu, que se ia tornando nublado. Enquanto esperava rezei a todos os santinhos para que pelo menos três ou quatro cachorritos tivessem a infelicidade de sofrer de ejaculação precoce ou disfunção eréctil. É que parecia mesmo que ia chover e eu não tinha onde me abrigar… E que os outro não demorassem mais que o tempo médio. Dois ou três minutos… Lembro-me de ter pensado que talvez fosse assim que as coisas se passam nas prisões, e naquele momento, prometi solenemente, nunca mais piratear cds e dvds. Eu estava convencido de que já tinha visto de tudo no que diz respeito a hiper-actividade sexual canina. Inclusivamente, quando eu era mais novo, os meus vizinhos do lado tinha um caniche, daqueles com permanente, e aspecto aparvalhado que adorava as minhas pernas. Sempre que me apanhava nas escadas, à espera do elevador, lá vinha ele, com ar de Glenn Close, pendurar-se na minha perna, a treinar a dança do varão. Por mais que eu tentasse enxotá-lo, a única coisa que conseguia era que o desgraçado do cão levantasse o focinho e olhasse para mim, com aquele olhar insinuante de Traci Lords, como que a dizer: “Desculpa lá puto, mas uma perna é uma perna…”.
E o sacana do elevador demorava sempre uma eternidade…
A mesma eternidade que parecia estar a levar a orgia nas escadas. Felizmente para mim, e para mal dos pecados de um cachorrito castanho, a cadela, já saciada, decidiu ir-se embora, permitindo-me a mim subir as escadas e deixando o desgraçado do cachorro castanho a olhar para ela com ar desiludido, arfando de língua de fora.
Quando me preparava para entrar no prédio, vejo o meu amigo sair, com ar preocupado, gritando: ”Piloto! Aqui já!
E, para meu espanto, o cachorrito castanho largou a subir as escadas, enfiando-se dentro do prédio. Decidi que não faria queixas dele ao dono, afinal é apenas natural, e não se devem reprimir este tipo de coisas. Quando entrámos no elevador, baixei os olhos para o Piloto, sorri e pensei: “Não desanimes, pá. Existem mais Sábados…
O Piloto, esse, olhava fixamente para a minha perna, com um ar que me pareceu assustadoramente familiar…

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O curriculum

09:00:00
-Bom dia…
-…
-´Tás muito ocupado, hoje?
-Tenho de acabar o trabalho do “…”. Já ´tá mais atrasado que o D. Sebastião… Porquê?
-Sabes quem é o Professor “…”?
-…
-Não sabes? Dá aulas em duas ou três Universidades… De física ou o que é… Aparece às vezes na televisão…
-Eu nunca soube o nome dos meus profes, pá! Sei lá eu agora quem é esse “…”!
-Bem, não interessa… O gajo dá aulas na Universidade… Qualquer merda relacionada com Nanotecnologia ou Física Quântica ou o caraças… Escreve para aí uma série de artigos da especialidade e dá montes de conferências… E faz parte de um porradão de Sociedades Europeias de merdas dessas…

-…Deve ser a alegria das festas onde vai…
-…Iá… bom, não interessa… É um carolas daqueles que até deve saber como construir uma bomba de Hidrogénio…
09:03:25
-…
-…e ligou para aí ontem, por intermédio da “…” para saber se lhe podíamos fazer um Curriculum Vitae.
-…?!?!
-É que o gajo vai a uma conferência não sei onde, e queria levar isso para distribuir aos outros carolas iluminados.
-Porque é que não manda fazer cartões de visita?
-Deve ser para o efeito moral, do género: “Olha, o meu curriculum é maior que o teu…”. Como a malta na escola: “Olha, tive uma nota mais alta que tu…”. Competição.
-…?!?!
09:05:17
-Não te aconteceu?
-… Epá… no meu tempo já competíamos com outras coisas… sei lá… gajas…
-… Iá, eu também… mas era só um exemplo…
-Sim, sim. Continua…
-Bom, o que o gajo queria saber era se lhe podíamos fazer um curriculum assim, sei lá, giro… Nada de extravagante, percebes? Mas assim… sei lá… com um arranjo gráfico giro… com uns cabeçalhos nas páginas… uma capa engraçada, com a foto do gajo… uns tipos de letra assim, sóbrios, não muito caretas…mas nada de extravagante…
-…
-O gajo mandava os textos em Word e a malta aqui fazia a paginação. Depois era só mandar para produção: imprimir, cortar e agrafar…
-Isso tudo para um curriculum?! Mas o gajo quer um curriculum ou uma revista??
09:08:32

-…Aaaaah…É que é um curriculum de 32 páginas A4…
-…?!?!
-…por isso é que ele…
-…F(…)-se! Mas o gajo muda de emprego todas as semanas ou quê!?
-Não… só que o gajo enfia lá tudo, desde empregos a conferências, artigos publicados e não publicados…
-Até os não publicados?
-…Iá… Epá, um carola daqueles só podia ter um curriculum gigantesco… Bombas, e tal…
-… Por “a malta aqui”, entenda-se “Eu”! E o “Eu” ´tá atrasadíssimo com o trabalho do “…”.
-Epá, faz lá isso. É uma coisa rápida, não precisa de ser candidato a nenhum prémio… e eu já disse ao gajo que se arranjava isso… E pelo que ele disse, tem montes de publicações da especialidade para mandar fazer depois…
-Arranjem mas é um estagiário, porra! Quero cá saber que o gajo saiba construir bombas de protões…
09:11:00


10:08:53
-Então? ´Tá quase?
-…
10:09:00



10:35:56
-Tenho o gajo ao telefone. Quanto tempo mais?…
-Epá… com artigos em revistas chamados “Fluorescence in Nanostructured Fulleride Films”, “Non-volatile Analysis by Laser Resonant Ionization Spectrometry: Application to (3,5,4-trihydroxystilbene) in fruits” e conferências que dão pelo nome de “C60 Anion Stability in Electron Transfer Collisions Using Potassium Atom as a Donor”, “Quasi-diatomic Behaviour in the Fragmentation of Halobenzene Negative Ions Induced byAtom- Molecule Collisions” e “Electron Transfer in Collisions of K + C6H5X (X = F, Cl, I)”… não sei… deve demorar um bocado…
-Mas não podes fazer “copy/paste”?!!
-Claro que posso… o problema são as fórmulas químicas… se o texto fica com alguma gralha nas fórmulas ainda rebentam para aí com qualquer merda e nós vamos parar a Guantanamo…
10:38:00



13:36:26
-Está aqui o Professor “…” para ver os prints do trabalho.
-Olá, boa tarde.
-Como está?
-Isto só foi um bocado complicado por causa das fórmulas químicas… mas de resto, não foi difícil…
-…
-Epá, ainda bem, porque eu preciso mesmo disto… Tenho de levar pelo menos uns quinze ou vinte para distribuir…
-…Quinze ou vinte?!
13:38:21
-Sim. Deve chegar.
-Mas… ó Professor… o custo de produção para apenas quinze ou vinte exemplares vai ser altíssimo… Eu pensei que queria fazer pelo menos uns cento e cinquenta ou duzentos livrinhos destes.
-…Livros? Eu não quero livros… Só queria que me fizessem um curriculum bonitinho para depois fazer fotocópias!
-…Fotocópias?!…
-Dá aí um cigarro pá!!
13:40:23
-Sim. Quinze ou vinte…
-…
-E disseram-lhe que entrasse em contacto connosco para tirar… fotocópias?!!
-…
-Vocês não tiram fotocópias?!

-…Dá aí lume!!
-Ó Professor… Nós aqui elaboramos os trabalhos para serem impressos através de outros processos… aaah… industriais… aaah… em grandes quantidades, ´tá a ver? Mandamos imprimir… em impressoras… aaah… grandes!!
-Imprimir em papel?
-…
-…certo…
-E não tiram fotocópias?
-Não é esse realmente o nosso ramo de negócio… isso terá de ser num centro de cópias…
-…
-…e não têm fotocopiadora?
13:44:47
-…
-Temos… nos serviços administrativos… mas para uso interno… não para comercializar fotocópias…
-Mas eu só queria quinze ou vinte…
-Pois… mas como mandou um curriculum com trinta e duas páginas… enfim… nós pensámos que fosse para fazer uma publicação, tipo revista…
-Revista? Era apenas um curriculum!
-…
-…
-Isso ia-me ficar numa batelada de dinheiro!
-Quando falámos ao telefone fiquei com a ideia de que queria fazer uma espécie de revista… Tal como para as outras publicações de que falámos…
-Publicações? Não eram publicações… eram fotocópias para distribuir nas aulas. Eu pensei que vocês fizessem o trabalho gráfico e depois pudessem tirar fotocópias…
-…

-…Portanto, o que queria eram fotocópias… bonitas.
-Sim.
-…
-…
-Bom.. Sendo assim, deixem lá… Eu faço isto em casa…
13:48:00



13:55:23
-…um mal-entendido do caraças, hein?…
-…hum…
-…o gajo explicou-se mal…
-…hum…
-…mas também… f(…)-se! O gajo apresenta-me um curriculum de trinta e duas páginas e não sabe que fotocópias são nas reprografias?
-…
-…sabe construir uma bomba atómica e não sabe onde se tiram fotocópias?…
13:58:27
-Quantas páginas tem o teu curriculum?
-Pá… Quando o mandei para aqui deu para aí umas três páginas… A4…
-…ainda bem que o meu só dá para aí meia página…
13:59:00


...suspiro...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Dinheiro do tempo do escudo

Há pessoas que odeiam fazer compras por uma infinidade de motivos: não querem gastar dinheiro, odeiam as confusões das lojas, aborrecem-se por terem de carregar sacos, ou não gostam de andar pelos centros comerciais passeando pela mão rolos de papel higiénico, pacotes de pensos higiénicos ou raviollis congelados. É justo.
Eu também não sou grande adepto desse desporto. Nem é pelo dinheiro que gasto, porque, infelizmente, gosto muito de o gastar. O problema está no dinheiro que recebo! Muitas vezes, quando estou na fila para pagar e chega finalmente a minha vez, as notas acabaram com o gajo que estava à minha frente, que pagou uma conta de sete euros e oitenta e cinco cêntimos com uma nota de cinquenta ou cem euros. E quem se lixa sou eu, que tenho de ouvir a empregada debitar o costumeiro discurso: “Desculpe lá, mas tem de ser assim…” e crava-me com centenas de moedas de um, dois e cinco cêntimos nas mãos!
Se tiver sorte, ainda recebo em moedas de dez cêntimos, mas para isso, é preciso que nesse dia a Cassiopeia esteja bem visível no céu. Já não me lembro de quando foi a última vez que recebi um troco sem ter de pôr as mão em concha, para sair depois do estabelecimento, com os bolsos carregados de níquel, arrastando os pés como se fosse uma alma penada, e largando à minha passagem um tilintar metálico semelhante ao arrastar de correntes…
Daquelas bem grandes… Com bolas de ferro e tudo…

Tudo isto não seria tão dramático se a quantidade tivesse equivalência no valor, mas qual quê… Sempre que chego a casa e esvazio os bolsos, perco dez minutos a contar moedinhas – se não me enganar, caso contrário, tenho de começar de novo – para descobrir que rasguei o forro dos bolsos pela módica quantia de… nem dois euros...
Alguém deve achar que eu tenho cara de porquinho de porcelana…
Ora, para piorar ainda mais este já de si terrível e pesado fardo, numa das vezes que me propus contar o dinheiro que tinha nos bolsos, dou de caras com uma moeda de cem escudos! Isso mesmo! Cem paus! Um pintor! Cem parrecos! Com a efígie de Pedro Nunes – ele mesmo – segurando uma esfera armilar… Que algum espertalhão me havia passado como sendo dois euros, numa das tais molhadas de moedas e moedinhas que eu normalmente recebo como troco.

Podiam ter-me passado aquilo como uma moeda de vinte cêntimos, que o estrago não seria assim tão grande e eu talvez até a guardasse como recordação, num desses ataques de nostalgia e saudosismo pelo passado. Mas não, passaram-ma como sendo dois euros. Fiquei a arder com um euro e meio! Se aquela porcaria já não valia grande coisa no tempo do escudo, agora então, vale tanto como uma rabanada de vento.
Vale o peso que me faz no bolso, só.

Ainda por cima, isto é como o jogo do “Passa a outro e não ao mesmo”. Não posso tentar passar isto ao gajo que me passou a mim, porque ele vai estar à coca. Ele já a passou a “outro”, agora o “outro” que se lixe!
Portanto, vou ter de fazer o mesmo, a outro incauto distraído – sim, porque isto foi mera distração da minha parte...
O problema é que já ando com a porcaria da moeda de cem paus no bolso há para aí, um mês, e ainda não me consegui livrar dela. Sempre que tento sou apanhado, e depois lá tenho de disfarçar com o discurso: “Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
A primeira vez que tentei foi num café. Tinha de pagar um euro e trinta e cinco cêntimos, correspondentes a um café e um bolo de arroz. Quando chegou a altura de pagar, puxei dos cem paus e coloquei-os estrategicamente camuflados entre a chávena de café e o pires do bolo de arroz, mas de forma a que se notasse que aquilo era uma moeda. Comecei a dirigir-me, furtivamente, em direcção à porta, enquanto dizia ao empregado: “Olhe, está aqui o dinheiro. Fique com o troco, sim?” E dirigi-me para a porta, triunfante, com uma sensação de alívio e leveza no bolso. Deve ser mais ou menos isto que o Ethan Hunt sente, depois de escapar ileso a mais uma “Missão Impossível”. Só me faltava a miúda gira pela mão…
Até que ouço o empregado gritar nas minhas costas: “Olhe! Espere aí!
Todo o café se silenciou e se virou para mim, na certa, pensando que eu queria fugir sem pagar!
Lembro-me de ter pensado: ”Deus: eu sei que ultimamente não tenho falado muito contigo, mas por favor, faz com que eu me tenha esquecido do isqueiro em cima do balcão. Eu prometo tomar mais atenção ao troco e nunca mais ser enganado…
Aproximei-me do balcão com o sorriso mais encantador que consegui colocar na minha face em pânico:
- Olhe que isto não são dois euros. Isto é uma moeda de cem paus. Olhe que isto já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E paguei a conta. Com dois euros porque, afinal, já tinha dito que podiam ficar com o troco…
De outra vez tentei passar a estuporada moeda no supermercado, pagando-lhes na mesma moeda, que é como quem diz, na mesma quantidade absurda de moedas, na esperança de que o sacana do Pedro Nunes mais a sua esfera armilar passassem despercebidos no meio daquela chaparia toda. Descarreguei nas mãos delicadas da operadora de caixa todo o espólio dos meus bolsos – Pedro Nunes incluído – e principiei, com ar enfiado, a guardar as compras nos sacos, como se nada se fosse. Mas pude ver pelo canto do olho que a empregada da caixa achou algo estranho naquela montanha de cobre – é que a parte exterior, que na moeda de dois euros é prateada, na minha moeda de cem paus, é assim a dar para o tom de ferrugem. E a gaja apercebeu-se! Porra!
Tudo teria sido tão mais simples, se em vez daquela estúpida moeda, me tivessem passado uma nota de Monopólio, caraças!
- Ó senhor… Olhe que isto não são dois euros. São cem escudos. Já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E ando nisto há um mês… Até já deixei a porra da moeda misturada na gorjeta do restaurante onde costumo almoçar, Mas no dia seguinte, ao trazerem-me a bandeja com o troco, adivinhem quem lá estava. Exacto. O C(…) do Pedro Nunes mais a P(…) da sua esfera armilar, aconchegados no aro cor de ferrugem, da República Portuguesa, que teima em perseguir-me. Ao pousar a bandeja do troco, o empregado disse-me, chispando faíscas pelos olhos:
- Ouve lá, pá… Ontem deixaste isto na gorja? Isto não são dois euros, pá. É uma moeda de cem paus. Esta porcaria já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E tive de repor a gorjeta do dia anterior…
Em desespero de causa, há uns dias, tentei dá-la a um arrumador de automóveis:
- F(…)-se! ´Tás a gozar ou quê? Esta merda não são dois euros, pá... Esta merda é uma moeda de cem paus. Isto já não se usa, c(…)!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
- Deixa-te mas é de tangas e cospe lá a guita se não queres que te f(…) os vidros ao carro!….
Que isto me sirva de lição: a partir de agora, olhinhos bem abertos, porque o maior cego é aquele que não quer ver…
...mas mais cego do que esse, é aquele que não CONSEGUE mesmo ver!
Está-me cá a parecer que vou levar o Pedro Nunes e a sua esfera armilar a dar um passeio de metro pela baixa…


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Nota mental: arranjar um saca-rolhas

(Este post encontra-se magnificamente ilustrado pelo autor. Mas para verdadeiramente apreciar esse autêntico festim visual, têm de ler esta porra até ao fim!)

Ora, aparentemente, começou o Inverno.
Nunca tenho palavras para descrever o meu estado de espírito quando esta estuporada estação da chuva, do vento, do frio e do Natal começa.
Eu sofro de um tipo de depressão que só se manifesta com “céu nublado, aguaceiros e rajadas fortes, com possibilidade de abertas durante a tarde”. Durante o Verão até pode fazer um calor que derreta a Torre de Belém ou a estátua do Cutileiro, que eu ando sempre feliz e contente, correndo, saltitando e chapinhando nas fontes e chafarizes, como um alegre pardaleco.
Mas quando chega o Inverno, essa estação tão literariamente associada à tristeza e à melancolia, com as suas cargas de água que me caem em cima com a força de três mil seiscentos e quarenta e quatro pianos, aí senhores, é o fim do mundo!
Caramba, como odeio o Inverno! Dá-me vontade de abalroar toda a gente na estrada! Ah, se eu tivesse um Hummer... Eu sei, eu sei: “A águinha faz falta às plantas e aos legumes!” Porra! E que falta tenho eu de plantas verdes e viçosas? Nem gosto de couves! Tenho cara de caracol, é? (vocês dois, calem-se!)
Usem Substral caraças, agora chuva?...
Como é que podem falar em “Aquecimento Global” quando continua a chover todos os anos? “Aquecimento Global, excepto em Portugal, onde continua a chover estupidamente” seria o termo correcto, ó Al Gore.
Irra! Odeio o Inverno!
Sim, tem o seu quê de romântico... A pessoa amada, uma lareira, uma cópia pirata do “Notting Hill”... Algumas das minhas músicas favoritas têm como tema a chuva, ou falam na chuva como algo inspirador - a fabulosa “Rain” dos “The Cult”, por exemplo. Mas isso é concerteza porque os autores nunca apanharam uma molha logo de manhã, para abrir bem a pestana. A pé às sete e meia, lavado, penteado, perfumado, vestido, e boca a cheirar a flúor e eucalipto às oito... encharcado às oito e três!
Além disso, sou solteiro, não tenho lareira em casa, e desde que a minha última namorada me deu com os pés que ninguém consegue sintonizar o DVD ...
Mas é inevitável... ela chegou como se fosse um parente afastado que nos chega numa visita surpresa e não dá mostras de se querer ir embora lá de casa tão cedo.
Este sábado, contrariamente ao que é habitual, safei-me do trabalho mais cedo. E isto senhores, já não acontecia desde o tempo do escudo! Como o meu clube se preparava para um dérbi que já fervilhava de antecipação, comecei a planear uma noite de saudável convívio num qualquer tasco que tivesse televisão. Imaginem pois vocês o meu choque quando, ao sair do meu local de trabalho, me deparo com um céu cinzento, de onde teimavam em cair milhares de irritantes gotinhas de água que me encharcavam a moleirinha com uma temperatura bem desagradável...
Tudo bem, eu não me iria juntar aos outros convivas num reles pardieiro cheio de goteiras por onde a chuva entrasse para se misturar com a imperial e encharcar amendoins e tremoços... Mas o feeling foi-se...
Fiquei tão macambúzio que decidi que o melhor seria minimizar a coisa com o meu plano de contingência para sábados destes: abastecer-me de tabaco e nostalgia, voar para casa, abrir uma garrafa de vinho tinto e colocar no leitor de cd´s o último álbum de Ben Harper, secundado pelo primeiro de Sheryl Crow, todos os que possuo de Diana Krall e um Best Of dos Cowboy Junkies, que desde há alguns anos a esta parte se tornaram nos meus santos padroeiros dos dias de neura meteorológica. Até já conseguia antever o meu clube a ser goleado, tal era o estado de espírito, sombrio como o tempo, que me invadia como uma horda de malta do Bloco de Esquerda numa manifestação contra... sei lá... qualquer coisa. Portanto, munido de tudo o que necessitava, com o ilustre californiano a debitar – ironicamente – “Don´t let them get the fight outta you” e escolhido o vinho, urgia encontrar um saca-rolhas para proceder à abertura da garrafa. Saca-rolhas esse que, aparentemente, se decidira pôr ao fresco, em busca de um clima mais ameno.
Procurei e revirei o estaminé. Abri gavetas que havia jurado a mim próprio nunca mais abrir, desde que lá escondi as cartas do Director de Turma. E nada de saca-rolhas! Encontrei toda uma panóplia de coisas inúteis, desde fotos antigas, passando pelo meu cartão de eleitor, boletim de vacinas e a meia com o Papa-léguas que eu havia procurado em vão há mais de três anos... Mas nada de saca-rolhas! Dei de caras, efectivamente, com alguns cinco abre cápsulas, daqueles para caricas, dos tempos em que ganhava a vida a esfregar o umbigo em balcões de estabelecimentos nocturnos, mas nada de saca-rolhas. Em desespero de causa pensei em ir a um café da minha rua pedir que me abrissem a garrafa, mas a ideia de que lá poderiam estar vizinhos que me viram crescer, e que assim que eu saísse porta fora, ficariam a abanar a cabeça com um “Tss, Tss... e prometia tanto...” de reprovação, fez-me pensar que talvez fosse melhor empurrar a rolha para dentro da garrafa e depois, simplesmente, cuspir os bocados de cortiça... Nada disto pareceria tão grave se estivéssemos no Verão, com sol, calor e miúdas giras decotadas. Provavelmente, num ataque de espírito positivo, eu pensaria algo como: “Que se lixe... adepto da bola digno desse nome, bebe cerveja.
Mas como aparentemente, chegou o inverno, o que me ocorreu de imediato foi: “E agora? Corto os pulsos com um X-Acto ou com o cutelo que a minha avó usava para desmanchar porcos inteiros?” Felizmente, a bem dos meus pulsos e dos tapetes lá de casa, num rasgo de capacidade de improvisação e genialidade – as mesmas que nas aulas de trabalhos manuais do sétimo ano, me levaram a tentar fazer um lindíssimo alto relevo em barro do Homem Aranha, e cujo resultado final ficou parecido com algo saído de uma tórrida noite de amor entre o Master Yoda e o Alberto João Jardim no carnaval – pensei em improvisar um saca-rolhas com dois ou três objectos que qualquer gajo que se preze sabe usar: um parafuso (grandinho) e uma chave de fendas!
Ora, eu sou um gajo que se preza, sim senhor, mas um daqueles gajos que se prezam, sem jeitinho nenhum para bricolage. E logo aí começaram as dificuldades: a chave de parafusos era diferente do parafuso em si. Eu empunhava, qual D. Afonso Henriques a sua espada, uma das chamadas chaves Phillips, e o parafuso, diferente, pedia uma chave de uma outra marca qualquer. Para aí uma Samsung ou uma Grundig... ou até mesmo uma Toshiba. Nada de grave, apesar de tudo... Imbuído de um espírito de conquista e com a música do MacGyver a trautear-me na cabeça, lá fui à cata da dita chave, que servisse no dito parafuso. E depois comecei a aparafusar – com esforço e magoando os dedos – o parafuso na rolha de cortiça (que eu nunca supus que pudesse ser tão rija). Mas ao fim de dez minutos, a tarefa estava concluída. As gotas de suor escorriam pelo meu tronco entretanto descamisolado, devido ao esforço. Os meus músculos salientes brilhavam com o suor e as veias latejavam (OK, agora estou a exagerar, mas quem é que está a contar a história, pá?...Chamam-se liberdades criativas...). Contemplei, feliz, o fruto do meu empreendedorismo – o parafuso cravado na rolha de cortiça – e pensei, com desmedido orgulho: “E agora, como é que eu saco esta trampa daqui para fora?”. Mais uma vez pensei em empurrar a rolha para dentro da garrafa.
Contudo, cuspir pedaços de cortiça é uma coisa, cuspir pedaços de limalha de ferro, é outra, de uma galáxia completamente diferente. Ir ao café não ia adiantar, porque para além dos olhares dos vizinhos (um indivíduo entrar encharcado com uma garrafa de vinho que tem um parafuso cravado na rolha deve parecer estranho) o que eu necessitava era de um serralheiro mecânico, e àquela hora, pelo menos na minha rua, é difícil encontrar um que esteja aberto. Ainda por cima em dia de dérbi. Portanto, num outro rasgo de imaginação – ou não fosse essa a minha principal arma para ganhar a vida – lembrei-me de puxar a ponta do parafuso - com quê, senhoras e senhores? – um alicate! De forma a conseguir puxar, por arrasto, aquela maldita rolha. Munido de um magnífico exemplar de cabo vermelho, dei início à homérica tarefa. Mas para aqueles que não sabem, fica aqui a dicazinha: não convém mesmo nada que o objecto que espetam na rolha fique espetado só até meio da dita rolha.
É que aquilo parte-se. E foi o que aconteceu. O que ficou na minha mão, depois desse tremendo esforço, em que prendi a garrafa com os pés enquanto, com os braços, puxava pelos instrumentos, foi um alicate que segurava um parafuso, que por sua vez estava cravado em meia rolha de cortiça. O resto estava no gargalo, e portanto, tive de repetir a operação até conseguir sacar todos os resquícios daquele miserável pedaço de árvore, que eu espero sinceramente, tenha sido toda bem esquartejadinha, e hoje seja apenas um conjunto de troncos inertes para queimar numa qualquer lareira desse Portugal, durante este maldito Inverno.

O vinho era muito bom. Frutado e com um final de boca muito suave, tal como eu gosto, e ao fim de três copos já toda a neura tinha passado: fui à janela e fiz um brinde à chuva, dancei nú pela sala ao som de “Son Of A Preacher Man”, e treinei o pino só com uma mão.
Improvisei discursos em frente ao espelho e fingi que era o Luís Filipe Menezes a fazer o discurso de vitória. Ah, como eu seria eloquente e charmoso para aquela jornalista na primeira fila, franzindo a testa numa expressão de sedução – à George Clooney - e piscando-lhe o olho de seguida...
Improvisei também o discurso de derrota de Marques Mendes... Mas não o terminei, porque o chão é de tijoleira e já me doíam os joelhos...

Entretanto, e enquanto esperava pela hora do jogo, que eu começava a antever como uma vitória retumbante do meu clube – quiçá, uma goleada - a lindíssima Diana Krall ia cantando “The Look of Love” – that´s me, babe - seduzindo-me com a sua magnífica voz, (que naquela altura, até já podia ser igual à da Ronalda... por mim...) e à qual eu respondia: “Ó querida... Deixa-me só ver o jogo e depois vamos, sim?
Hora do jogo! O vinho está a acabar! Que se lixe! Já apanhei o truque... Sou um mestre de Bricolage!
Acendo a televisão. Que é isto?!... Filmes??? Mudo o canal... Nada?! Consulto o jornal... SportTV??!!!...
(........)
Agarrei na garrafa, no copo, e com tiques de Jorge Palma meets Keith Richards disse: “Diana, quiducha, sou todo teu.


Como “Há males que vêm por bem”, a Sessão Dupla da 2 transmitiu o excelente “Touro Enraivecido” com os grandes DeNiro e Joe Pesci.

O Domingo foi dedicado à já célebre “Cura da ressaca e do torcicolo provocado pela noite dormida no sofá”, sem pôr os pés fora de casa, porque ainda por cima estava mau tempo.
Acordei depois das notícias da uma e adormeci antes das notícias das oito.
Hoje cheguei atrasado ao trabalho e não vi jornais.
Alguém sabe como ficou o jogo?...

Espero que não tenha sido empate!...


Nota do Autor
Para terminar com alguma maledicência que insiste em afirmar que neste estaminé não se aprende porra nenhuma, aqui fica, em primeiríssima mão, um esquema, magnificamente ilustrado pelo autor, de como abrir garrafas com parafusos, chaves de fendas e alicates:
(Clique nas imagens para ampliar)

Passo 1: Junte todos os elementos necessários. Tenha em atenção que o parafuso não deve ser demasiado fino e deve ser mais alto que a rolha em questão:


Passo 2: A chave de parafusos deve ser igual à cabeça do dito parafuso. Depois de se certificar desse pormenor, comece a aparafusar o parafuso na rolha, no sentido dos ponteiros do relógio. Ignore as dores na palma da mão.



Passo 3: Certifique-se que o parafuso alcança o fim da rolha, sem a furar. Caso contrário, prepare-se para cuspir pedaços de cortiça. A cabeça do parafuso deve ficar fora da rolha.



Passo 4: Completa a operação de aparafusamento, muna-se do alicate, prenda a cabeça do supracitado parafuso, e com suaves movimentos de pulso, comece a puxar a sacana da rolha.



Passo 5: Conseguiu sacar a rolha??!!! Porreiro!... Agora é só limpar o suor e apreciar o vinho. Vá... Emborrache-se para aí que nem um valente...


Ou então...