Era um daqueles casos que dispensava diagnóstico médico. Podia dispensar a autópsia.
O tipo em questão não devia valer sequer um dois de copas.
E para alegrar o meu dia, seria eu que teria de descobrir quanto é que o gajo valia.
Porque quereria alguém saber esta trampa?
“Porque raio de carga de álcool é que aquela ratazana do Google continua a mandá-los vir ter comigo?”, pensei, no meio da balbúrdia de dores de cabeça e recordações pouco nítidas de bolas de espelhos e pompons da noite anterior.
Eu era o pato. O gajo que havia sido tramado para ter de resolver uma merda cujo resultado preferia desconhecer.
O outro estava na festa de lançamento do seu livro, armado em investigador Hot Shot, e eu que desse o corpo às balas.
Como sempre… sou sempre o tipo dos ressaltos.
E o meu amigo Jack já se pusera a fancos dali para fora, depois da farra da noite anterior, deixando apenas uma foto sua, esbatida, a fazer o pino em frente do meu nariz.
De roupagem preta e letras brancas.
Jack is jolly good fellow. Mas estas noitadas roubam-me anos de vida.
Que se lixe. Já é tarde demais para milk and cookies.
A questão massacrava-me...
Ocorreu-me que talvez tivesse de dar um salto à praia. À procura de pistas.
E do turista inglês que me ficou a dever cinco euros. Não é pelo dinheiro.
Mas o role-playing paga-se.
Especialmente quando há répteis envolvidos.
Para um tipo de sobretudo e chapéu, talvez não fosse uma ideia brilhante.
Mas fiz o meu trabalho. Não foi fácil.
Havia qualquer coisa de assustador que fazia com que nas ruas, ninguém falasse.
Nos becos escuros onde acabei tantas noites, ninguém falava.
O silêncio era quebrado apenas pelo som de "I will survive" de Gloria Gaynor, que saia da bôite onde tantas noites eu havia entrado e brilhado...
E corrido a pontapé pelo porteiro vestido de canalizador... no hard feelings...
A minha simples presença naquelas vielas inquietava aqueles tipos, que evitavam olhar-me nos olhos...
Afinal, quem seria este tipo? Em que espécie de sordidez andaria envolvido?
E teria ele sido um dos metidos na Sanduiche da noite anterior?
As dúvidas assolavam-me a moleirinha como uma carga de água na Indonésia.
Pensei em largar aquilo. Ia arrepender-me de querer saber.
Mas, não gosto de deixar nada por acabar.
Não desde os tempos das “Noites Amadoras – Mostre o que vale no nosso varão”.
Não faz o meu género.
Mas onde arranjaria eu um chibo?
Um gajo que cantasse o que eu queria saber?
Que se lixe. Decidi basear-me nos meus instintos. Sempre era uma resposta.
“quanto pagar pela pérola dentro da ostra?”...
Só conheço um tipo que responde por esse nome...
Em certos círculos... onde as identidades se esbatem como um albino numa line-up da polícia.
Faz-se acompanhar por um tipo baixo, verde, de tão doentio...
É mais um caso de violência doméstica: o Homenzinho Verde arreia-lhe com força...
...
E francamente! Se esse tipo algum dia produzir algo como uma pérola, que brilhe…
…não vale muito mais que uma noite de farra com o meu amigo Jack!
…e talvez uns pretzels...




