sexta-feira, 28 de março de 2008

Após o sinal, deixe a sua mensagem...

Francamente não entendo porque é que aquela rapariguita da Escola Carolina Michaelis se envolveu à pancada com a professora por causa do sacana do telemóvel.
No lugar dela eu consideraria isso como uma benção. Mais: dava porrada na professora para que ela me tirasse o telemóvel. E ai dela que o devolvesse!
Tudo bem, a miúda tem 15 anos, portanto ainda não experimentou todos os malefícios dos telemóveis. Para ela deve ser um símbolo de status e algo que serve para exkrever axim kuando manda mgs au namurado a dixer o kt u ama.
Mas convenhamos, daqui a uns dez anos ela vai arrepender-se amargamente de não ter deixado aquela côdea velha ficar com a porcaria do telefone. Basta que lhe liguem do trabalho às 23.30 de Sábado, quando ela está nos copos com as amigas ou na cama com os amigos. Ou vice-versa.
É que os problemas que ela vai ter agora não são nada comparados com os que vai ter no futuro. Tudo bem, vai ser transferida de escola. Mas quando for mais velha não vai poder ser transferida do local de trabalho, da família, das coisas que combinou e às quais não vai ter coragem de se baldar. Tudo isso porque está apenas a um toque de distância. É como viver num Big Brother Marconiano. O telefone não foi inventado para isto. Foi inventado para não se atender quando não nos apetece, para tirar o auscultador do gancho ou para pedir a alguém lá em casa que atenda e diga que nós não estamos.
A porra dos telemóveis veio dar cabo disso tudo.
Eu sou severamente reprimido quando o meu telemóvel está desligado! E não percebo porquê… Então porque é que aquela trampa tem um botão para ligar e desligar, alguém me explica? E se eu decido não atender porque não me apetece na altura, fico mal visto se não retribuo a chamada mais tarde. E nem sequer posso atender e dizer que não estou. Que fui à rua comprar tabaco ou estou numa reunião, por favor deixe recado…
E depois há os SMS, os MMS e toda uma panóplia de tecnologias que me sufocam e me obrigam a falar com que não quero, quando não quero. Odeio tudo o que seja portátil!
Telefones portáteis, computadores portáteis… Pareço uma parteira: estou sempre em Defcon 4, pronto a ligar a maquinaria assim que a porra do grilo começa a tocar e a vibrar no meu bolso! Sinto-me na obrigação de trabalhar a toda a hora e em todo o local. De estar disponível para tudo. E nem tenho coragem de ser mal educado quando algum desgraçado me tenta aliciar a subscrever um serviço qualquer… Porquê? Porque tudo é portátil! Chiça! Felizmente não tenho um daqueles telefones que até avisam quando recebemos e-mails, senão nem sequer podia dormir.
Tremo cada vez que ouço um “tiiii-tiiii”…
Ouve lá, ó miúda que bateu na professora, vais arrepender-te amargamente de não teres deixado o telemóvel ir à viola.
E depois ainda inventaram os auriculares sem fios, que fazem com que a malta pareça um maluquinho de mãos nos bolsos a falar com um amigo imaginário...
Eu já usei todas as desculpas para não andar com telemóvel ou para não o atender: esqueci-me dele em casa há quinze dias e conheci uma maluca que não me deixa sair de casa dela para o ir buscar. Perdi-me no parque de estacionamento durante uma semana e não havia rede lá em baixo. Ganhei uma visita de estudo a bordo de um submarino. Estava a conduzir… Em desespero de causa afirmei que era daltónico e confundia o botão verde de atender, com o vermelho de rejeitar. Mas não consigo escapar. Até já tentei imitar a voz do Voice Mail… Não resultou porque me engasguei.
Certa vez não encontrava o telemóvel, mas sabia que o tinha algures em casa ou no carro. Mas não me dei ao trabalho de o procurar, como é óbvio. E também não comprei outro, porque não tinha mesmo perdido o raio do telefone. Direi apenas que foi um dos melhores anos da minha vida. Só tinha de ouvir as censuras dos outros quando estava ao pé deles, mas ao fim de duas cervejas… who gives a fuck?….
Até que o idílio acabou, e fui dar com a maquineta na mala do carro, encravado na roda sobresselente.
Estou a pensar seriamente em voltar a estudar…

terça-feira, 11 de março de 2008

As palavras que nunca te direi

Okay, first things fuckin' last!*

Existem pessoas que se recordam de filmes que as marcaram pelos mais diversos motivos: o enredo, os actores, a banda sonora, a realização, etc, etc, etc.
Eu não digo que esses factores não sejam importantes para apreciar um filme e guardá-lo na memória, mas… no meu caso, aquilo que faz com que determinado filme fique para sempre guardado no baú das recordações, juntamente com os puzzles que consegui resolver e as notas positivas a matemática, são aquilo a que eu chamo “cool lines”.
São aquelas deixas geniais que me fazem sair do cinema a desejar ver-me confrontado com uma situação parecida à do protagonista do filme, para poder largar aquela frase tão a calhar naquela circunstância, tão carregada de sarcasmo e humor que, se debitada pela minha boca, faria de mim o “King of Coolness” lá do bairro.
De certeza que isso também vos acontece! Já lá vão os tempos de infância em que o meu imaginário era preenchido por seres estranhos, bebidas exóticas e mulheres lascivas.
Não há mulheres lascivas na minha vida, a cerveja mexicana é onde eu traço o meu limite no que a bebidas exóticas diz respeito, e em relação a seres estranhos… bom… conheço alguns, mas não são como eu os imaginava.
Desde que comecei a apreciar cinema o meu imaginário começou a ser povoado por hipotéticas situações dignas de uma “cool line”. É por isso que alguns dos meus filmes favoritos são péssimos do ponto de vista da realização ou interpretação, mas mesmo assim, figuram na lista. Porquê? Têm uma, ou várias cool lines que eu adoraria dizer em qualquer circunstância.
Por exemplo, um dos meus filmes preferidos de todos os tempos é “Estrada de Fogo”, de 1984. O filme não passa de um cliché com uma banda sonora porreira e um actor principal de quinta categoria. Mas tem montes de “cool lines”, como esta: quando no fim do filme, e depois de salvar a donzela, o herói deixa a cidade, rumo a um destino incerto, com nada mais que a roupa do corpo e uma shotgun debaixo da gabardine, alguém lhe diz: “Take it easy, Cody.” Ao que o herói responde: “I'll take it where I can get it”.
Porra, quem me dera ter a possibilidade de dizer isto! É deste material que se fazem as lendas! O problema é que ninguém se despede de mim em inglês.
E geralmente é com um “Ainda aqui estás?” ou “Sai do meio da estrada imbecil!



É complicado arranjar “cool lines” para aplicar no nosso dia a dia. Ou porque só se aplicam em determinadas circunstâncias, muito específicas, ou simplesmente porque perdem toda a piada quando traduzidas para português. Uma das coisas que eu mais gostava de ter possibilidade de dizer é a deixa de Bruce Willis na saga “Die Hard”: “Yippie-kay-yay, motherfucker!

Mas isso implicava que eu me envolvesse numa discussãozeca numa bomba de gasolina, por exemplo com alguém que quisesse passar-me à frente, e aquilo descambasse comigo a regar o tipo com gasolina para depois sacar do meu Zippo e pegar fogo ao gajo, ao som do click do isqueiro, enquanto dizia a frase. Mas não faria muito sentido dizê-la em inglês… Seria mais algo como “Yippie-kay-yay, ó seu cabrão!”.
Convenhamos que a sonoridade não é a mesma. Não tem o mesmo impacto, e receio mesmo que o tipo acabasse por não pegar fogo porque se mijaria a rir.
A triste realidade é que a língua de Camões pode ser muito romântica no que toca a cantar os feitos das Descobertas, por mares nunca dantes navegados, a desgraçada relação de Pedro e Inês que fez com que a coitada perdesse a cabeça, ou a quantidade de sal do oceano que são lágrimas de Portugal, mas no que diz respeito a frases que fariam as miúdas suspirar por nós, tem exactamente o mesmo impacto que o Albanês ou o Mandarim: Zero.
É claro que há coisas que não perdem a piada e a “coolness” na tradução. No filme “Era uma vez um rapaz”, a personagem interpretada por Hugh Grant, quando confrontada com a sua existência solitária e superficial de Playboy, com a célebre expressão ”Nenhum Homem é uma ilha”, rapidamente responde “Eu sou uma ilha! Eu sou Ibiza!
Esta deve ter sido a única “cool line” que eu consegui aplicar em toda a minha vida, e não porque viva uma vida de Playboy superficial e rodeado de mulheres - Fuck!! (uuuh…outra cool line…) - , mas porque comprei um carro com o nome da dita ilha…
OK, não é a mesma coisa, não tem a mesma “coolness”, mas foi bem aplicada.
Além disso não posso ficar a vida toda à espera de uma oportunidade para dizer: ”You talking to me? Well I'm the only one here. Who the fuck do you think you're talking to? Oh yeah? OK.” E de seguida disparar uma Magnum. É que essa possibilidade poderá nunca chegar. E além disso, como é que se traduz isto para português com sotaque italiano? Isto exclui todas as “cool lines” do De Niro! Lá está a porra da língua de Camões a atrapalhar os meus esforços para ser um tipo que todos os gajos invejassem e todas as miúdas desejassem.
As descobertas foram há 500 anos!!!!!

Aqui poderia ser aplicado o “Move the fuck on!” de Edward Norton em “A última Hora”, quando ele se imagina a dizer à comunidade negra que a escravatura acabou há quase dois séculos.
Julliette Lewis em “Assassinos Natos”: “You made my shitlist!”. Francamente, senhores... Como é que isto vai soar bem no romantismo da língua de Camões? Esta porra não é fado. “Estás na minha lista de merda”? Que piada é que isso tem?
George Clooney em “Aberto até de Madrugada”: “OK Ramblers, let´s get ramblin´…”, que seria mais ou menos: “Muito bem vagabundos, vamos lá vagabundear”. Ora, eu não vou dizer isto a ninguém. Provavelmente ninguém iria vagabundear para lado nenhum e eu seria o alvo de chacota durante duas semanas… Mas porra, como eu gostava de dizer esta!
Um dos piores filmes que eu tive a infelicidade de ver em toda a minha vida, e que dá pelo nome de “Coyote Bar”, tem uma das melhores “cool lines” dos últimos tempos, que pode perfeitamente ser traduzida, sem perder impacto: ”Só existem três homens na minha vida: Jonny, Jack e Jim” – uma óbvia referência a três marcas de Whisky.
O problema é que isto dito por um gajo – eu sou um gajo – poderia parecer, sei lá… Gay.
Um dia lembrei-me de uma grande “catch phrase” de James Bond, relacionada com bebidas: o famoso Dry Martini (uma mistura de Gin com vermute seco e uma azeitona verde espetada num palito), “Shaken, not Stirred”, ou seja, mexido, não agitado. Mas desisti quando a empregada me perguntou, com ar esbugalhado se eu queria o Dry Martini branco ou tinto, e se eu me importava que ela usasse uma cereja cristalizada porque as azeitonas tinham acabado ao almoço.
E depois existem as “cool lines” que eu adorava que me dissessem a mim. Lembram-se do “Top Gun”? Quando Kelly McGillis diz a Tom Cruise: “Maverick, you big stud… Take me to bed or lose me forever…
Eu adorava que uma mulher me dissesse isto. Mas não em português!!!! É que assim soa mal…. Se alguma miúda me sussurrasse ao ouvido: “_____, seu grande garanhão… Leva-me para a cama ou perde-me para sempre…”, a minha reacção seria, provavelmente…

POOOOOORRRRRRAAAA! Vamos nessa Vanessa, que a língua de Camões pode ser muito romântica, sim senhor, mas a minha pelo menos ainda está viva!!!!!
...É impressão minha, ou acabei de inventar uma "cool line" que soa bem em português?...


*Nice Guy Eddie, personagem de “Reservoir Dogs”.
A tradução para a língua do zarolho deu algo como: “Muito bem, vamos lá começar pelo início”…





...e agora, algo de extremo mau gosto, seja em que língua for...