Uma das coisas que a minha religião proíbe é beber cerveja sem álcool. Ou com sabores a lima, limão, groselha e por aí fora. Na nossa lista de pecados mortais, essa tentação ocupa um austero vigésimo sexto lugar, entalada entre o “Sexo antes do casamento” e o “Faltar às reuniões de condomínio, mesmo não tendo nada melhor para fazer”. E nós, fiéis ovelhinhas, cumprimos.
Mas, que raio, somos humanos e, há que admiti-lo, propensos ao pecado. Perdi já a conta ao número de noites em que não consigo pregar olho, rebolando na cama atormentado pelas imagens que me vêm à cabeça de uma bela e fresca cerveja sem álcool ou sabendo a gasosa. Sofro com a tentação do pecado, qual Padre Amaro ouvindo à noite, no silêncio da casa, o rumor de Amélia despindo o seu vestido no quarto de baixo – estou a falar do livro e não do filme, uma vez que a Soraia Chaves passa muito pouco tempo vestida e, portanto, sem necessidade de se despir...
Este tormento é apenas comparável à provação por que passei quando, no meu intímo, me questionava sobre como seria cometer o pecado número onze... Felizmente fui forte e, posso hoje afirmar com orgulho desmedido, nunca ter assistido a um concerto dos Fingertips.
Mas temo que este caso seja mais grave... Um dia cederei à tentação de passar uma noite a emborcar cerveja e não me enganar na casa ao fim da noite. Oh, vergonha suprema! Chegar a casa sem os joelhos das calças rasgados pelas pedras da calçada... Uma noite inteira sem vomitar nos pés de ninguém... Sem tentar engatar miúdas esguias e firmes, embrulhadas em enormes casacos e malas, que no dia seguinte me apercebo serem apenas bengaleiros... Se ao menos houvesse forma de pecar sem que os outros se apercebessem... Mas não! Os génios do Marketing lembraram-se de fazer rótulos tão distintos da cerveja com álcool, que quem cometer a ousadia de beber uma sem álcool passa a ser olhado como se fosse algum leproso, ou, pior ainda, fã dos Fingertips. Por que raio não fazem tudo igual? Mesmo que a minha religião o permitisse, eu nunca iria querer que toda a gente se apercebesse que a quantidade de cerveja que eu bebo, seria, ao fim da noite, tão inofensiva como o Nuno Gomes em frente a uma baliza vazia. Ninguém deseja isso. Mais importante que ser, é parecer. Dá menos trabalho que “ser” e permite-nos ter a mesma “coolness”. Poderíamos passar uma noite rodeado de amigos tão ébrios que clamassem pela invasão dos espanhóis ou Paulo Portas para Primeiro-Ministro, e não ser o único desgraçado a parecer um virgem num bar de alterne (mera figura de estilo, eu também não sei o que isso é...).
Tudo seria tão mais simples. De vez em quando soltávamos uma alarvidade qualquer que demonstrasse o nosso estado borracho: “Se eu fosse treinador do Benfica dormia descansado!”. Dançávamos de forma estranha, de olhos fechados, abanando apenas o tronco e segurando a garrafa de forma romântica, afagando-lhe o gargalo, ao som de Prince ou dos Kiss... Dessa forma seria possível manter a dignidade, sem a manchar com comentários mesquinhos feitos por terceiros nas casas de banho ou enquanto esperamos para pagar... Não estaríamos bêbados, mas poderíamos “parecer” bêbados... E isso, salvaria a nossa honra.
Se bem que a ideia de haver no Estádio da Luz uma bancada “Sagres Zero” ou “Super Bock Green” já faz pulular na minha cabeça toda uma série de piadas e trocadilhos.
Para além do mais, esta solução dos rótulos indistintos ainda nos daria a maior vantagem de todas, o ás de copas, o Full House dos bebedores alarves de cerveja: nunca mais seríamos o primeiro a dizer “não tragas para mim”. Nunca mais eu seria o primeiro desistente, mas sim o “Último Homem a cair”. Seria um David Crockett defendendo o Álamo, matando mexicanos até à última bala, vendo os meus companheiros de armas tombarem, um após o outro. OK, vocês os dois poderão estar a pensar “mas... estarias a mentir...”.
Sim, estaria. Mas na nossa lista de pecados, a mentira ocupa o equivalente à classificação do Tiago Monteiro num Grande Prémio de Fórmula 1: muito lá para o fim, entalada entre o “Sexo durante o casamento” e o “Mentir às Finanças”. Portanto também não é isso que me vai levar ao inferno...
Mas beber cerveja sem álcool sim. Dá direito a toda uma eternidade passada no reino de Satanás, rodeado por uma monumental orgia de vícios e mulheres lascivas com pouca ou nenhuma roupa. E eu não quero isso para mim...
Apelo portanto aos senhores do Marketing das cervejas, cobardemente escondido no meu anonimato: Façam rótulos iguais para todas as cervejas. Assim só a rapariga que me atendesse no bar ficaria a saber o quanto eu seria pecador. Mas até daí poderia vir alguma coisa boa: há miúdas que se pelam por “Bad Boys” e eu, passando uma noite inteira a emborcar cerveja com sabor a papaia seria, aos seus olhos, o supremo pecador, o fruto proibido e perigoso... Desde que façam tudo com rótulos iguais!
Se eu tiver de beber cerveja sem álcool, que seja numa garrafa que não tenha um rótulo que faça de mim um espectáculo de anormalidade e que grite: “Ei! Olhem para mim! Adoro fazer sexo com a minha mulher enquanto ela dorme!”. Sim, porque cerveja sem álcool é isso mesmo: o sabor até é parecido mas falta qualquer coisa que não sabemos o que é... Bem... Quero dizer... Deve ser...
Mas, que raio, somos humanos e, há que admiti-lo, propensos ao pecado. Perdi já a conta ao número de noites em que não consigo pregar olho, rebolando na cama atormentado pelas imagens que me vêm à cabeça de uma bela e fresca cerveja sem álcool ou sabendo a gasosa. Sofro com a tentação do pecado, qual Padre Amaro ouvindo à noite, no silêncio da casa, o rumor de Amélia despindo o seu vestido no quarto de baixo – estou a falar do livro e não do filme, uma vez que a Soraia Chaves passa muito pouco tempo vestida e, portanto, sem necessidade de se despir...
Este tormento é apenas comparável à provação por que passei quando, no meu intímo, me questionava sobre como seria cometer o pecado número onze... Felizmente fui forte e, posso hoje afirmar com orgulho desmedido, nunca ter assistido a um concerto dos Fingertips.
Mas temo que este caso seja mais grave... Um dia cederei à tentação de passar uma noite a emborcar cerveja e não me enganar na casa ao fim da noite. Oh, vergonha suprema! Chegar a casa sem os joelhos das calças rasgados pelas pedras da calçada... Uma noite inteira sem vomitar nos pés de ninguém... Sem tentar engatar miúdas esguias e firmes, embrulhadas em enormes casacos e malas, que no dia seguinte me apercebo serem apenas bengaleiros... Se ao menos houvesse forma de pecar sem que os outros se apercebessem... Mas não! Os génios do Marketing lembraram-se de fazer rótulos tão distintos da cerveja com álcool, que quem cometer a ousadia de beber uma sem álcool passa a ser olhado como se fosse algum leproso, ou, pior ainda, fã dos Fingertips. Por que raio não fazem tudo igual? Mesmo que a minha religião o permitisse, eu nunca iria querer que toda a gente se apercebesse que a quantidade de cerveja que eu bebo, seria, ao fim da noite, tão inofensiva como o Nuno Gomes em frente a uma baliza vazia. Ninguém deseja isso. Mais importante que ser, é parecer. Dá menos trabalho que “ser” e permite-nos ter a mesma “coolness”. Poderíamos passar uma noite rodeado de amigos tão ébrios que clamassem pela invasão dos espanhóis ou Paulo Portas para Primeiro-Ministro, e não ser o único desgraçado a parecer um virgem num bar de alterne (mera figura de estilo, eu também não sei o que isso é...).
Tudo seria tão mais simples. De vez em quando soltávamos uma alarvidade qualquer que demonstrasse o nosso estado borracho: “Se eu fosse treinador do Benfica dormia descansado!”. Dançávamos de forma estranha, de olhos fechados, abanando apenas o tronco e segurando a garrafa de forma romântica, afagando-lhe o gargalo, ao som de Prince ou dos Kiss... Dessa forma seria possível manter a dignidade, sem a manchar com comentários mesquinhos feitos por terceiros nas casas de banho ou enquanto esperamos para pagar... Não estaríamos bêbados, mas poderíamos “parecer” bêbados... E isso, salvaria a nossa honra.
Se bem que a ideia de haver no Estádio da Luz uma bancada “Sagres Zero” ou “Super Bock Green” já faz pulular na minha cabeça toda uma série de piadas e trocadilhos.
Para além do mais, esta solução dos rótulos indistintos ainda nos daria a maior vantagem de todas, o ás de copas, o Full House dos bebedores alarves de cerveja: nunca mais seríamos o primeiro a dizer “não tragas para mim”. Nunca mais eu seria o primeiro desistente, mas sim o “Último Homem a cair”. Seria um David Crockett defendendo o Álamo, matando mexicanos até à última bala, vendo os meus companheiros de armas tombarem, um após o outro. OK, vocês os dois poderão estar a pensar “mas... estarias a mentir...”.
Sim, estaria. Mas na nossa lista de pecados, a mentira ocupa o equivalente à classificação do Tiago Monteiro num Grande Prémio de Fórmula 1: muito lá para o fim, entalada entre o “Sexo durante o casamento” e o “Mentir às Finanças”. Portanto também não é isso que me vai levar ao inferno...
Mas beber cerveja sem álcool sim. Dá direito a toda uma eternidade passada no reino de Satanás, rodeado por uma monumental orgia de vícios e mulheres lascivas com pouca ou nenhuma roupa. E eu não quero isso para mim...
Apelo portanto aos senhores do Marketing das cervejas, cobardemente escondido no meu anonimato: Façam rótulos iguais para todas as cervejas. Assim só a rapariga que me atendesse no bar ficaria a saber o quanto eu seria pecador. Mas até daí poderia vir alguma coisa boa: há miúdas que se pelam por “Bad Boys” e eu, passando uma noite inteira a emborcar cerveja com sabor a papaia seria, aos seus olhos, o supremo pecador, o fruto proibido e perigoso... Desde que façam tudo com rótulos iguais!
Se eu tiver de beber cerveja sem álcool, que seja numa garrafa que não tenha um rótulo que faça de mim um espectáculo de anormalidade e que grite: “Ei! Olhem para mim! Adoro fazer sexo com a minha mulher enquanto ela dorme!”. Sim, porque cerveja sem álcool é isso mesmo: o sabor até é parecido mas falta qualquer coisa que não sabemos o que é... Bem... Quero dizer... Deve ser...

Nenhum comentário:
Postar um comentário