sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

O mundo é a minha ostra!


É com esta afirmação optimista e sem ponta de ironia que gosto de encarar a vida e todos os seus percalços.
Eu sou assim, optimista por natureza! Para mim, o copo estará sempre meio cheio e nunca meio vazio!
Sou um daqueles gajos a quem os menos afortunados, cínicos e amargos, que se sentem espezinhados pela aleatoriedade da vida chamam “Epá, c´a ganda otário!”. Mas eu sou assim. Aliás, é genético. A minha família tem um enorme historial de “Síndrome de Optimismo Exagerado Comó Catano”. Tornou-se hábito na noite de consoada contarmos uns aos outros os percalços e privações a que fomos sujeitos nesse ano e os respectivos argumentos que explicam o que há de positivo nos mesmos: “Em março escorreguei no skate do puto. Caí e parti as duas pernas. Fiquei numa cadeira de rodas durante quatro meses. Mas olha, deixei de gastar dinheiro em gasolina e ainda recebo para ficar em casa!” disse orgulhoso o meu tio Eduardo este Natal. “Oh, eu cá, não tenho problemas desses. Nem sequer tenho carta de condução. Mas como fui despedido da fábrica de Nouggats também não preciso de sair para muito longe.” esgrimiu de imediato o primo Vitalino, olhando em volta à espera de reconhecer nos nossos rostos um sorriso beatífico, que na nossa família equivale a um pódio: quanto mais babado for o sorriso, mais alto se sobe. Até os mais jovens começam desde tenra idade a ter participações honorárias nesta espécie de concurso, assim ao jeito de um Eusébio a dar o pontapé de saída num jogo de futebol: “pronto, vá lá, é pela piada”. Este ano o Tiaguinho cresceu meio palmo quando gritou bem alto “Quando o meu pai voltou do Hospital partiu o meu skate para fazer lenha, mas eu não me importo, porque a minha mãe já me deu outro!”. Eu notei uma troca de olhares entre o Eduardo e a esposa. Que grande cumplicidade devem ter aqueles dois. Foi um momento solene porque se fez um silêncio embaraçoso na mesa. Eu desviei o meu olhar em direcção ao petiz, que brincava junto da árvore de natal com o seu novo skate, e o deixava mesmo a jeito para proporcionar a outro incauto sortudo quatro ou cinco meses de glória.
E foi neste harmonioso ambiente que eu cresci, rodeado de familiares que se esforçavam por tornar tudo menos sombrio e mais cor de rosa. Por isso tenho sobrevivido com relativa facilidade aos tropeções com que a vida me tem brindado. Nunca me esquecerei da primeira conversa séria com o meu pai, aos treze anos, quando descobriu através das garatujas escritas nos meus livros da escola, que eu estava apaixonado pela Luísa, filha da manicure ao lado da praça. “Então e tu já….? Hem, hem?… Tu e ela…?” enquanto me dava cotoveladas e piscava o olho. “Olha que ela já tem catorze anos, hem? Se não te despachas…”
Lembro-me de me ter interrogado, na minha inocência: “Se não me despacho? O que é que acontece? Ela faz quinze anos?”. Descobri o significado daquela pérola de sabedoria quando vi a Luísa a ser apalpada pela equipa de juvenis do clube lá do bairro. Coitadinha, foi a forma que ela arranjou de premiar a primeira vitória dos nossos rapazes ao fim de vinte e um jogos. Fiquei desolado.
Mas lá estavam para me apoiar aquelas pessoas que nunca deixaram cair um parente na lama: “Deixa lá pá! Ainda tens muito tempo para apanhar DST´s!” - isto é o copo meio cheio.
Mas marcou-me, não o nego. Hoje em dia, quando a vejo passar, roliça, com aquele rabo enorme onde caberia sem dificuldade um parque de diversões, e alguns filhos pendurados pelo cachaço, pergunto-me se não poderia ter sido diferente. Pelo menos ela saberia quem era o pai dos filhos, e não viveria na dúvida de quem teria(m) sido o(s) malandro(s). Sempre que ela passa por nós, o meu pai sibila baixinho em tom de censura, entre dois golos de macieira “Se tu tivesses jeito para jogar à bola, também tinhas lá ido…” Eu nem tento explicar ao meu pai que não é uma questão de jeito para a bola, porque os outros também não deviam de valer grande coisa. Somando todas as vitórias individuais de cada jogador, o plantel todo devia ter para aí seis jogos ganhos. Em dois anos. Não me parece nada de extraordinário, mas como eu não tenho jeito para bola… Em compensação, era um ás a trepar árvores, muros, algerozes e candeeiros de rua, e esse talento permitiu-me passar a adolescência integrado no grupo dos “cool kids”, aqueles que se baldavam às aulas para ir fumar às escondidas e espreitavam para dentro dos balneários das miúdas nas aulas de Educação Física. Passo a explicar: o meu talento invulgar era necessário para ir buscar a bola aos locais de difícil acesso. Eu tinha mais jeito para trepar do que aquela gente toda para jogar à bola! Não parece nada de especial, é certo, mas eu era sempre o primeiro a ser convocado para as jogatanas. Pode dizer-se que tinha uma carreira no futebol, sem necessidade de saber sequer o que era um fora de jogo. Como o João Loureiro. Aliás, esse até teve uma carreira como cantor sem saber cantar, mas se até o José Cid o conseguiu anos a fio… O futebol é pródigo nessas coisas. Até a Luísa, com aquelas rambóias todas deu início a um novo género de carreira desportiva: a ronfadora de jogadores da bola, cujo expoente máximo nos chega através dessa grande ronfadora que é a Merche Romero. É certo que não ronfa jogadores como o Figo conquistou títulos, mas também não devem haver assim tantos disponíveis… A não ser que ela se mudasse para Alcochete, e aí apanhava-os directamente do ninho.
Mas é melhor não me dispersar, se não quando der por mim estou a escrever sobre a Elsa Raposo, e então nunca mais saio daqui.
Em jeito de conclusão (sempre quis dizer isto mas nunca tive oportunidade…) o que é preciso é espírito positivo e encarar cada limão como se fosse a mais doce toranja, e para todos os virgens à beira dos trinta: não desanimem. Ao menos não apanharam DST´s… (Doenças Sexualmente Transmissíveis, para aqueles que não chegaram lá…)