terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

A história do ovo

Tenho muito poucas memórias, realmente claras dos meus tempos de infância. Aquela época que normalmente as pessoas recordam pelas roupas ridículas que os pais as obrigavam a vestir, as refeições intragáveis que lhes eram empurradas pela goela abaixo à força de braços, chantagens, promessas de recompensas, e ameaças que iam desde o Papão, ao Velho que roubava e comia criancinhas (sinto-me tentado, mas não vou comentar).
Acho que essas memórias, quando não se teve a felicidade de uma infância cor de rosa, podem ser fatais. Algumas das minhas disfunções têm por base as horríveis e agonizantes experiências que me foram infligidas nos primeiros anos de vida. Um dos meus pesadelos recorrentes passa-se no pátio da escola onde fiz a primeira classe: estou a correr em volta dos campos de futebol, evitando as poças de água, enquanto sou perseguido por um gigantesco sapo vermelho com uns enormes olhos esbugalhados, que chapinhando tudo em volta, vai deixando enormes pegadas em zig-zag.
Obrigado mamã, por aquelas magníficas galochas “Colibri” com os seus enormes olhos brancos que mais pareciam cogumelos a nascer-me nos pés.
Por muito que digas que no dia em que as recebi, até quis dormir com elas calçadas… Devias ter previsto isto…
Obrigado pelas horríveis papas de bolacha Maria com tudo o que pudesse ser transformado numa mistela intragável: pêras, maçãs, bananas, parafusos…
Passados todos estes anos, ainda compro e consumo, de uma forma perfeitamente estúpida, Blédines de fruta e ensopado de borrego.
Preferi recalcar e esquecer episódios deste género. Os que consegui pelo menos. Alguns estão demasiado presentes e o Homenzinho Verde que vive na minha cabeça, faz questão de gritá-los bem alto.
Como A História do Ovo.
Que, como em todas as histórias interessantes, aconteceu por causa de uma mulher…
Corriam os saudosos anos oitenta, e eu era um feliz e despreocupado rapazola, que frequentava a escola primária, que brincava no recreio, jogava ao berlinde e à apanhada e levava reguadas. Era um alívio, quando às três da tarde, a campainha nos libertava da sala de aula para a sala do ATL (Actividades de Tempos Livres). Primeiro o lanche, depois os trabalhos de casa (TPC, para os que estão mesmo a curtir a trip down the memory lane…), e, finalmente, as actividades propriamente ditas, como picotar desenhos em cima de uma esponja (a minha favorita, apesar de só ter recuperado a sensibilidade na ponta dos dedos quando entrei para o sexto ano), pintar a roda dos alimentos, desenhar as nossas famílias felizes ao lado de enormes casas que não eram as nossas, com jardins que não tínhamos e um carro igual ao “General Lee” dos “Três Duques”.
Onde estavam os tempos livres, ainda hoje estou para saber…
Se calhar, levavam-me para casa demasiado cedo, e já não os apanhava…
Foi numa dessas tardes que reparei nela pela primeira vez. Sentada ao meu lado, só me apercebi da sua presença quando entabulou conversa comigo.
Não me lembro do pretexto.
Como era possível que ainda não a tivesse visto?
Devia estar a picotar qualquer coisa…
Chamava-se Ana Rita. Tinha cabelo loiro, quase amarelo e escorrido. E uns enormes olhos azuis. Desde aí, e até hoje, todas as raparigas loiras de olhos azuis que vejo, se chamam, para mim, Ana Rita. Tornámo-nos inseparáveis, e, inevitavelmente, envolvemo-nos. Estávamos na altura, os dois na casa dos sete, e tínhamos o mundo pela frente. Fizemos planos até à altura da Pós-Graduação, depois se veria… Fazíamos tudo na companhia um do outro: lanchávamos, brincávamos, picotávamos, sentávamo-nos juntos no banco de trás da carrinha que nos levava a casa, e, quando eu saía, ela ficava no banco de trás a acenar, com o seu enorme sorriso iluminando os seus enormes olhos azuis.
Fomos várias vezes apanhados nas traseiras dos pavilhões da escola e nos recantos dos corredores a trocar beijos.
Isto segundo a minha mãe, que eu não me lembro (logo tinha de esquecer, involuntariamente, a única memória que valia a pena!). Um dia demos um ao outro a maior prova de amor que podíamos dar: trocámos o resultado final dos nossos trabalhos: Não me lembro do que lhe dei, mas de certeza que era picotado, e ela ofereceu-me aquilo em que andava a trabalhar há dias: uma casca de ovo onde os seus dedinhos, com a ajuda de uma paciência de chinês, haviam colado meticulosamente fios de lã a fazer de cabelo, contas a fazer de nariz, boca e olhos, e, se bem me lembro, dois triângulos de pano como se fossem o laço ao pescoço.
Éramos felizes.
Até que um dia chegou uma enorme tempestade que arrasaria com tudo, deixando nada mais que entulho atrás de si. Que, como em todas as histórias interessantes, aconteceu por causa de outra mulher.
Não me lembro se era bonita ou feia. Lembro-me do seu nome: Ana M. (não escrevo o sobrenome porque com um pouco de azar ela lê isto e processa-me por lhe arruinar o casamento).
Ora a Ana M. tinha desenvolvido uma fixação doentia por mim (eu era muito giro em miúdo, a sério), numa espécie de antecipação do que seria feito em cinema, anos mais tarde pela Glenn Close (OK, agora estou-me a gabar). E perseguia-me sempre que me via, pedindo-me em namoro. Que eu sempre recusei. Eu tinha a Ana Rita! Mas a Ana M. era manhosa, como o são todas as pretendentes a amantes! Um dia seduziu-me e aliciou-me com dois carrinhos em miniatura que roubara ao irmão mais velho. Cubro-me de vergonha e desonra, ao admitir que… cedi. Mais para ver se ela parava de chatear do que outra coisa qualquer. Eu nem gostava dela… Mas devo argumentar em minha defesa: Quantos de vós resistiriam a uma mulher que vos oferecesse, não um, mas dois bólides?!
E assim passei a dividir o meu tempo entre a Ana Rita de quem realmente gostava, e a Ana M. de cada vez que ela me apanhava.
Foi o princípio do fim. Uma tarde, depois de ter sido fisgado pela infatigável Ana M., brincava com ela nos baloiços da escola. Eis que, de repente, o mundo desabou: a outra Ana (a Rita) estava ali. Os seus olhos azuis tornaram-se pequenos de tristeza. Tinha sido apanhado a brincar com outra! Como fui parvo! Podia ter ido para outro parque infantil. Um que eu soubesse que ela nunca iria lá por os pés… Lembro-me do ar de desilusão estampado na cara dela, por entre as migalhas do lanche no canto da boca e os bigodes do leite. Mas sorriu, cordial, e afastou-se. Em desepero, corri atrás dela, ignorando as súplicas da outra, e as suas promessas de que seríamos felizes os três: eu, ela e o boneco do He-Man, que ela se prestava a roubar ao irmão para me oferecer.
Finalmente, alcancei-a. Ali, em privado junto às casas de banho (ou despensa, não me recordo exactamente), ela deixou-me… Não me perdoou a traição de ter brincado com outra. De a ter deixado esquecida na mesa onde nos sentávamos, a pintar, a desenhar ou a picotar, com uma cadeira vazia ao seu lado. Fui invadido por um sentimento de tristeza como nunca havia sentido desde que o Papuça e o Dentuça se separaram. Que logo foi substituído por uma enorma raiva, quando, qual mulher que se sente enganada, desrespeitada e trocada por outra mais nova, ela me gritou: “E QUERO O MEU OVO DE VOLTA!!” Foi o fim. Foi como se dentro daquela casca de ovo, tão laboriosamente enfeitada, se encontrasse tudo aquilo que normalmente funciona como arma de arremesso: a casa, o carro, a custódia dos putos, o PPR, o faqueiro e até a imitação da jarra da Marinha Grande. “Prefiro tocar fogo a esta merda toda!” pensei eu. Ou teria pensado, se fosse mais velho. E respondi-lhe tentando manter a pouca dignidade que me restava ”Já o parti”. Assim, fomos nessa tarde, em bancos separados na carrinha.
Nessa tarde ela não ficou a acenar adeus.
Desfiz o ovo num acesso de raiva (e porque tinha imensa vontade de esmagar aquela superfície lisa e macia desde que o recebera, confesso). Vi-me à nora para me livrar da Ana M. e fiquei com esta recordação a assombrar-me quase tanto como a porcaria das galochas com olhos de sapo.
Ana Rita, valias mais que dois carrinhos em miniatura e um boneco do He-Man.
Provavelmente, eu valia menos que uma casca de ovo…
Mas só eu é que tenho direito a achar isto!!!!!!

Um comentário:

Anônimo disse...

Isto ainda parece mais ridiculo escrito... ;)
Mas uma grande historia, non the less.
Os carinhos eram ferraris?
Abraços