Hoje o dia amanheceu cor de rosa. Não por causa de um magnífico nascer do sol, num horizonte azulado e sem nuvens. O motivo é diferente e especial: hoje é o Dia dos Namorados!
Finalmente a cultura americana conseguiu impingir-nos uma coisa realmente útil, nada de McDonald´s, Hip-Hop, calças a escorregar pelas pernas abaixo, correntes de porta-aviões ao pescoço, Budweiser e uma raivazinha mesquinha contra qualquer coisa que fale espanhol…
Agora é que foi a valer. Obrigado Uncle Sam.
Já não imagino o que seria viver 365 dias sem o Dia dos Namorados. Logo aqui, onde nunca acontece nada de especial. Estou arrepiado, só de imaginar um país onde os acontecimentos mais emocionantes do ano fossem: os frangos do Ricardo, os quatro golos do Nuno Gomes, as raras (felizmente) mas estrategicamente planeadas aparições de Paulo Portas, as intervenções disparatadas de Manuel Pinho, as notícias do sucesso avassalador dos Portugueses no estrangeiro (Manuel José, Artur Jorge e Joaquim de Almeida…) e a transferência de Simão Sabrosa para cinco clubes em menos de três meses.
Felizmente temos este pequeno oásis povoado por cupidos, em que tudo transborda amor e paixão. Nem que seja por um dia, quase todo o país espelha felicidade. Todo? Não. Um pequeno grupo de amargurados solitários resiste ainda e sempre ao invasor peganhento, responsável por muito pouco higiénicas trocas de saliva em locais públicos (outras coisas podem ser trocadas, mas o Swing, o Role-play e a troca de lingerie ficam para outros posts), sorrisos embeiçados e adjectivos mais a apelar ao estômago do que à libido: bomboca, doçura, bombonzinho, pastelinho de nata, pastelinho de bacalhau, porco e vaca.
Mas esses desencantados são facilmente identificáveis: são os que logo à noite, enquanto seguramos a mão da nossa cara metade, sentada do outro lado da mesa, vão entrar sozinhos no restaurante e fazer uma cara de desapontamento ao verificarem que não há mesas livres para ele/a jantarem sozinhos/as.
Contudo, e apesar de se notarem progressos de ano para ano, ainda estamos muito atrasados na exploração do potencial desta data. Os comerciantes por exemplo, já começam a dar o exemplo fazendo românticos apelos ao consumo, enfeitando as montras com uma infindável parafernália cor de rosa. Num país em que tanto se discute o deplorável estado da economia, esta é uma fantástica iniciativa. Elas entram na loja e compram uns “boxers”, a seguir entram eles e mandam embrulhar um peluche. Agora multipliquemos estas pequenas compras por dez ou onze milhões, e qual é o resultado? Para além de uma população muito menos criativa e original do que a data exige na hora de escolher presentes, teríamos circulação de dinheiro e um aumento do consumo.
O que me parece francamente positivo.
Não quero parecer presunçoso, não percebo nada de economia ou finanças, mas outros há que percebem tanto como eu e têm muito mais tempo de antena!
E eu tenho muito melhor aspecto para aparecer na televisão. Mesmo não usando fato e gravata…
Outra das vantagens seria o facto de poder promover a reconciliação entre os desavindos. Os Portugueses são historicamente conflituosos: a génese da nossa existência enquanto povo, europeus e membros do pelotão da frente da moeda única, foi a coça que D. Afonso Henriques deu à mãe! Ora isto não se faz. Tudo bem, a senhora era espanhola, mas mesmo assim… Ao longo da nossa história, até as pessoas mais humildes se tornaram violentas: a padeira de Aljubarrota, por exemplo. Novamente contra os Espanhóis. Não se percebe este sentimento pouco hospitaleiro contra quem nos deu a conhecer os caramelos de Badajoz…
Andámos à batatada com toda a gente: Suevos contra Visigodos, Portugueses contra Espanhóis, Portugueses contra Mouros, Portugueses contra Franceses… E continuámos por aí fora: as lutas liberais, as tentativas de golpe de estado, a recepção à selecção portuguesa depois do mundial da Coreia, os jogos Porto vs Benfica nos anos 90, mais recentemente, os jogos Boavista vs Qualquer Um… Isto só para exemplificar alguns casos.
Perante todo este belicismo, eu pergunto: não poderia o dia de São Valentim ser usado, não só para celebrar o Amor, mas também para promover algumas reconciliações entre casais de costas voltadas?
Tudo isto através de uma troca de prendas simbólicas, mas carregadas de intenção. Sei lá, uns bombons, uns cabazes de fruta?… Scolari poderia oferecer a Queirós um sobretudo igual ao do Mourinho, por exemplo. Pinto da Costa podia oferecer a Carolina Salgado, uma vez que a senhora até se virou para a letras, um livro de um Nobel da literatura, como Márquez e as suas “Memórias das minhas putas tristes”. E já que falamos de Márquez, Rui Costa poderia ser contemplado com um exemplar de “Cem anos de solidão”, mas com os “Cem anos” do título a serem substituídos por “90 minutos” contra o Varzim. Os sócios do Sporting poderiam oferecer a José Peseiro uma magnífica selecção com os livros do Mourinho, do Boloni, do Jardel, do Jorge Costa e, para completar, um livro da Maria de Lurdes Modesto. Valentim Loureiro ofereceria a Maria José Morgado um livro de exercícios do Inspector Varatojo.
E José Sócrates a Manuel Pinho, um bilhete de ida para Timbuctu…
Seríamos sem sombra de dúvida um país mais aprazível para todos os que nos viessem visitar.
Mesmo os espanhóis.
Finalmente a cultura americana conseguiu impingir-nos uma coisa realmente útil, nada de McDonald´s, Hip-Hop, calças a escorregar pelas pernas abaixo, correntes de porta-aviões ao pescoço, Budweiser e uma raivazinha mesquinha contra qualquer coisa que fale espanhol…
Agora é que foi a valer. Obrigado Uncle Sam.
Já não imagino o que seria viver 365 dias sem o Dia dos Namorados. Logo aqui, onde nunca acontece nada de especial. Estou arrepiado, só de imaginar um país onde os acontecimentos mais emocionantes do ano fossem: os frangos do Ricardo, os quatro golos do Nuno Gomes, as raras (felizmente) mas estrategicamente planeadas aparições de Paulo Portas, as intervenções disparatadas de Manuel Pinho, as notícias do sucesso avassalador dos Portugueses no estrangeiro (Manuel José, Artur Jorge e Joaquim de Almeida…) e a transferência de Simão Sabrosa para cinco clubes em menos de três meses.
Felizmente temos este pequeno oásis povoado por cupidos, em que tudo transborda amor e paixão. Nem que seja por um dia, quase todo o país espelha felicidade. Todo? Não. Um pequeno grupo de amargurados solitários resiste ainda e sempre ao invasor peganhento, responsável por muito pouco higiénicas trocas de saliva em locais públicos (outras coisas podem ser trocadas, mas o Swing, o Role-play e a troca de lingerie ficam para outros posts), sorrisos embeiçados e adjectivos mais a apelar ao estômago do que à libido: bomboca, doçura, bombonzinho, pastelinho de nata, pastelinho de bacalhau, porco e vaca.
Mas esses desencantados são facilmente identificáveis: são os que logo à noite, enquanto seguramos a mão da nossa cara metade, sentada do outro lado da mesa, vão entrar sozinhos no restaurante e fazer uma cara de desapontamento ao verificarem que não há mesas livres para ele/a jantarem sozinhos/as.
Contudo, e apesar de se notarem progressos de ano para ano, ainda estamos muito atrasados na exploração do potencial desta data. Os comerciantes por exemplo, já começam a dar o exemplo fazendo românticos apelos ao consumo, enfeitando as montras com uma infindável parafernália cor de rosa. Num país em que tanto se discute o deplorável estado da economia, esta é uma fantástica iniciativa. Elas entram na loja e compram uns “boxers”, a seguir entram eles e mandam embrulhar um peluche. Agora multipliquemos estas pequenas compras por dez ou onze milhões, e qual é o resultado? Para além de uma população muito menos criativa e original do que a data exige na hora de escolher presentes, teríamos circulação de dinheiro e um aumento do consumo.
O que me parece francamente positivo.
Não quero parecer presunçoso, não percebo nada de economia ou finanças, mas outros há que percebem tanto como eu e têm muito mais tempo de antena!
E eu tenho muito melhor aspecto para aparecer na televisão. Mesmo não usando fato e gravata…
Outra das vantagens seria o facto de poder promover a reconciliação entre os desavindos. Os Portugueses são historicamente conflituosos: a génese da nossa existência enquanto povo, europeus e membros do pelotão da frente da moeda única, foi a coça que D. Afonso Henriques deu à mãe! Ora isto não se faz. Tudo bem, a senhora era espanhola, mas mesmo assim… Ao longo da nossa história, até as pessoas mais humildes se tornaram violentas: a padeira de Aljubarrota, por exemplo. Novamente contra os Espanhóis. Não se percebe este sentimento pouco hospitaleiro contra quem nos deu a conhecer os caramelos de Badajoz…
Andámos à batatada com toda a gente: Suevos contra Visigodos, Portugueses contra Espanhóis, Portugueses contra Mouros, Portugueses contra Franceses… E continuámos por aí fora: as lutas liberais, as tentativas de golpe de estado, a recepção à selecção portuguesa depois do mundial da Coreia, os jogos Porto vs Benfica nos anos 90, mais recentemente, os jogos Boavista vs Qualquer Um… Isto só para exemplificar alguns casos.
Perante todo este belicismo, eu pergunto: não poderia o dia de São Valentim ser usado, não só para celebrar o Amor, mas também para promover algumas reconciliações entre casais de costas voltadas?
Tudo isto através de uma troca de prendas simbólicas, mas carregadas de intenção. Sei lá, uns bombons, uns cabazes de fruta?… Scolari poderia oferecer a Queirós um sobretudo igual ao do Mourinho, por exemplo. Pinto da Costa podia oferecer a Carolina Salgado, uma vez que a senhora até se virou para a letras, um livro de um Nobel da literatura, como Márquez e as suas “Memórias das minhas putas tristes”. E já que falamos de Márquez, Rui Costa poderia ser contemplado com um exemplar de “Cem anos de solidão”, mas com os “Cem anos” do título a serem substituídos por “90 minutos” contra o Varzim. Os sócios do Sporting poderiam oferecer a José Peseiro uma magnífica selecção com os livros do Mourinho, do Boloni, do Jardel, do Jorge Costa e, para completar, um livro da Maria de Lurdes Modesto. Valentim Loureiro ofereceria a Maria José Morgado um livro de exercícios do Inspector Varatojo.
E José Sócrates a Manuel Pinho, um bilhete de ida para Timbuctu…
Seríamos sem sombra de dúvida um país mais aprazível para todos os que nos viessem visitar.
Mesmo os espanhóis.

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