Lá diz o ditado: “Um dia o passarinho abre as asas e voa para longe”.
É que vai acontecer no dia - da graça do Senhor – 28 de Junho.
É já este Sábado que o meu melhor amigo se casa e abandona o estatuto de amador, e passa a profissional. Antes de mim. O que a bem dizer, até nem me chateia nada, porque para dizer a verdade, eu prefiro que seja ele a experimentar as coisas primeiro que eu, para depois me contar como são.
Tem sido assim nos parques de diversões, nas bebidas de nome estranho e nos bares “à porta fechada”, com porteiros saídos de um episódio dos Sopranos.
A única coisa em que eu normalmente sou o primeiro é a ficar com os copos, mas como ele diz, eu bebo como um pardalinho.
Isso não é necessariamente mau: as bezanas ficam-me mais baratas.
Vou sentir falta das noites de copos, sentados ao balcão a discutir questões filosóficas, metafísicas e, sobretudo importantes, como por exemplo, o que leva as marmotas a construir aqueles diques e se o Fernando Redondo foi realmente o melhor jogador do mundo na sua posição – eu continuo a afirmar que sim, nem que te cases no Alasca!
Ora, depois de muita insistência, e usando o argumento de que as minhas bebedeiras ficam baratuchas, lá consegui que ele me convidasse. Espero que não tenham convidado a senhora que se sentou na mesma mesa que eu no último casamento a que fui…
E eu tenho andado a viver toda a ansiedade que o deve assolar neste momento, por procuração.
Já carreguei a mala de lenços de papel, porque tenho a certeza que as minhas mãos vão transpirar quase tanto como as dele. Vou tremer à distância quando ele for ameaçado pela família da pobre rapariga a quem arrancou de uma existência normal, para que a trate bem, não chegue tarde sem avisar, e ajude na lida da casa, mesmo que jogue o Belenenses…
E, para melhorar a coisa, o casamento é longe, o que significa que vou ter direito a um fim de semana inteirinho.
Foi preciso que o meu melhor amigo se decidisse a dar o nó para que eu conseguisse ter um vislumbre de férias…
Assim sendo, e porque provavelmente não vou estar em condições de vir aqui fazer uma Reportagem Socialite do que aconteceu, deixo, em primeiríssima mão, o programa do fim de semana, porque afinal de contas, já são alguns aninhos de festarolas, farras e copos, portanto estou na chamada “Posição Zandinga”: consigo prever com uma exactidão assustadora tudo o que vai acontecer.
DIA 27 DE JUNHO – A CHEGADA
• Partida de Lisboa ao fim do dia para evitar o calor. Como não vou no meu carro, provavelmente vou ter de levar com merdas como Bon Jovi ou Alejandro Sanz, para entrar no espírito. Espero que a bateria do iPod aguente a viagem…
• Chegada ao Porto. Como a garganta está seca do pó da viagem (e três horas de musiquinha cantarolada por gajos que comem canja de galinha levam qualquer um ao desespero) vamos beber um copito para desopilar.
Nada de excessos porque alguns de nós têm de acordar no dia seguinte.
• Barrados na maioria das casas nocturnas portuenses. Os gajos não se impressionam com o sotaque de Lisboa, portanto não contamos como turistas.
• Acabamos a beber copos num sítio lúgubre, onde somos servidos por um tipo carrancudo e pela sua “sobrinha” desdentada e tísica…
• Ofereço-lhe – como planeámos toda a juventude – um passaporte falso e dez euros para recomeçar uma vida nova noutro sítio.
Não aceita, e aproveito os dez euros para mandar vir mais uns copos.
Guardo o passaporte porque um dia posso vir a precisar.
DIA 28 – É HOJE!
• Sem saber muito bem o que aconteceu, acordamos a apenas algumas horas do casamento, num contentor carregado de camelos, a caminho de Marrocos.
O noivo entra em pânico porque ainda tem de fazer a barba.
• O noivo está ressacado! Mais tarde dirá à noiva que passámos a noite a ver o Casablanca, com uma cerveja e um pacote de pretzels, e foi para a cama cedo. Não dormiu bem por causa da ansiedade.
• Os convidados começam a chegar ao local da cerimónia. O noivo recebe-os todos com um sorriso tímido e poucas palavras.
Não conseguiu arrancar o cheiro a gin martelado da boca.
• A malta começa a beber uns copos. Antes da cerimónia haverão pelo menos dois casos de coma alcoólico. O noivo pede desculpa aos pais das crianças.
• A noiva chega e despacham a coisa, porque a malta está esganada de fome. Descobrem que “aquele teu tio que eu não conhecia”, afinal não é tio de nenhum deles. Correm com ele, mas não sem antes ficarem a arder com duas garrafas de moscatel e um pirex de pastéis de bacalhau.
• As solteiras, as divorciadas, as viúvas e as “Mulheres independentes e auto-suficientes que não precisam de gajos para nada” degladiam-se até ao puxão de cabelo para apanhar o ramo da noiva.
Ninguém fica ferido, à excepção de uns quantos penteados.
O ramo acaba por ser apanhado pela senhora da limpeza… por toda a sala.
• Os noivos abrem a pista. Alguém pergunta quando começa o Karaoke.
A noiva, chispando faíscas pelos olhos, diz que não teve tempo de providenciar esse entretenimento tão giro.
Alguém grita do fundo da sala, com ar triunfante, que trouxe a sua máquina de Karaoke. Com listas impressas e tudo.
A noiva, cuspindo impropérios e relâmpagos entre dentes, agradece ao anormal por ter salvo o Copo d´água.
• O noivo, ainda sob o efeito do gin martelado, agora tornado atómico depois de misturado com Jameson e Sushi, abre as hostilidades com a sua soberba interpretação livre de “Great balls of fire”, que faz questão de traduzir para “Grandes tomates de fogo”.
Faz um encore com “Should have known better”.
Leva o público ao desespero na parte do “aiaiaiaiaiaaaaiiiaaaaiii…. Should have known betteeeerrrrrr…”
• Uma amiga dos velhos tempos lembra-o de que não está no Kats em 1999. Aquele número não resultava na altura, e agora continua a não resultar.
Com a agravante de que agora, é casado.
• A família do noivo suspira de alívio. A da noiva suspira… porque suspira…
• Alguém interpreta esse grande clássico do Karaoke, “O papel principal”, de Adelaide Ferreira.
• A família do noivo agarra nos tupperwares e balda-se dali para fora.
• Alguém pede para desligar o ar condicionado.
Afinal está desligado.
Pede-se então à família da noiva que pare de suspirar.
• O noivo faz uma tentativa de Stand-up comedy. Tem a voz entaramelada “porque está cansado e dormiu mal com a ansiedade”. A malta ri-se por simpatia, e porque, afinal, é tudo gente educada.
A noiva olha fixamente para a biqueira dos sapatos.
A família da noiva… bem…
• Acaba a festa. O noivo insiste para que fiquem até à hora do jogo.
Alguém lhe diz que o jogo é só no dia a seguir.
DIA 29 DE JUNHO – O REGRESSO
• Debandada geral para Lisboa do pessoal que é de Lisboa, e para outras paragens do pessoal que é de outras paragens.
DIA 14 DE NOVEMBRO
• Torno a ser apanhado pela Polícia Marítima espanhola, desta vez algures no Estreito de Gibraltar, a bordo do que parece ter sido uma caixa de tâmaras.
Sou recambiado para Marrocos.
DIA 15 DE NOVEMBRO
• Desta vez vou dar a volta pela Tunísia. Ainda por cima, estou cheio de fome desde que cheguei ao Porto.
É que vai acontecer no dia - da graça do Senhor – 28 de Junho.
É já este Sábado que o meu melhor amigo se casa e abandona o estatuto de amador, e passa a profissional. Antes de mim. O que a bem dizer, até nem me chateia nada, porque para dizer a verdade, eu prefiro que seja ele a experimentar as coisas primeiro que eu, para depois me contar como são.
Tem sido assim nos parques de diversões, nas bebidas de nome estranho e nos bares “à porta fechada”, com porteiros saídos de um episódio dos Sopranos.
A única coisa em que eu normalmente sou o primeiro é a ficar com os copos, mas como ele diz, eu bebo como um pardalinho.
Isso não é necessariamente mau: as bezanas ficam-me mais baratas.
Vou sentir falta das noites de copos, sentados ao balcão a discutir questões filosóficas, metafísicas e, sobretudo importantes, como por exemplo, o que leva as marmotas a construir aqueles diques e se o Fernando Redondo foi realmente o melhor jogador do mundo na sua posição – eu continuo a afirmar que sim, nem que te cases no Alasca!
Ora, depois de muita insistência, e usando o argumento de que as minhas bebedeiras ficam baratuchas, lá consegui que ele me convidasse. Espero que não tenham convidado a senhora que se sentou na mesma mesa que eu no último casamento a que fui…
E eu tenho andado a viver toda a ansiedade que o deve assolar neste momento, por procuração.
Já carreguei a mala de lenços de papel, porque tenho a certeza que as minhas mãos vão transpirar quase tanto como as dele. Vou tremer à distância quando ele for ameaçado pela família da pobre rapariga a quem arrancou de uma existência normal, para que a trate bem, não chegue tarde sem avisar, e ajude na lida da casa, mesmo que jogue o Belenenses…
E, para melhorar a coisa, o casamento é longe, o que significa que vou ter direito a um fim de semana inteirinho.
Foi preciso que o meu melhor amigo se decidisse a dar o nó para que eu conseguisse ter um vislumbre de férias…
Assim sendo, e porque provavelmente não vou estar em condições de vir aqui fazer uma Reportagem Socialite do que aconteceu, deixo, em primeiríssima mão, o programa do fim de semana, porque afinal de contas, já são alguns aninhos de festarolas, farras e copos, portanto estou na chamada “Posição Zandinga”: consigo prever com uma exactidão assustadora tudo o que vai acontecer.
DIA 27 DE JUNHO – A CHEGADA
• Partida de Lisboa ao fim do dia para evitar o calor. Como não vou no meu carro, provavelmente vou ter de levar com merdas como Bon Jovi ou Alejandro Sanz, para entrar no espírito. Espero que a bateria do iPod aguente a viagem…
• Chegada ao Porto. Como a garganta está seca do pó da viagem (e três horas de musiquinha cantarolada por gajos que comem canja de galinha levam qualquer um ao desespero) vamos beber um copito para desopilar.
Nada de excessos porque alguns de nós têm de acordar no dia seguinte.
• Barrados na maioria das casas nocturnas portuenses. Os gajos não se impressionam com o sotaque de Lisboa, portanto não contamos como turistas.
• Acabamos a beber copos num sítio lúgubre, onde somos servidos por um tipo carrancudo e pela sua “sobrinha” desdentada e tísica…
• Ofereço-lhe – como planeámos toda a juventude – um passaporte falso e dez euros para recomeçar uma vida nova noutro sítio.
Não aceita, e aproveito os dez euros para mandar vir mais uns copos.
Guardo o passaporte porque um dia posso vir a precisar.
DIA 28 – É HOJE!
• Sem saber muito bem o que aconteceu, acordamos a apenas algumas horas do casamento, num contentor carregado de camelos, a caminho de Marrocos.
O noivo entra em pânico porque ainda tem de fazer a barba.
• O noivo está ressacado! Mais tarde dirá à noiva que passámos a noite a ver o Casablanca, com uma cerveja e um pacote de pretzels, e foi para a cama cedo. Não dormiu bem por causa da ansiedade.
• Os convidados começam a chegar ao local da cerimónia. O noivo recebe-os todos com um sorriso tímido e poucas palavras.
Não conseguiu arrancar o cheiro a gin martelado da boca.
• A malta começa a beber uns copos. Antes da cerimónia haverão pelo menos dois casos de coma alcoólico. O noivo pede desculpa aos pais das crianças.
• A noiva chega e despacham a coisa, porque a malta está esganada de fome. Descobrem que “aquele teu tio que eu não conhecia”, afinal não é tio de nenhum deles. Correm com ele, mas não sem antes ficarem a arder com duas garrafas de moscatel e um pirex de pastéis de bacalhau.
• As solteiras, as divorciadas, as viúvas e as “Mulheres independentes e auto-suficientes que não precisam de gajos para nada” degladiam-se até ao puxão de cabelo para apanhar o ramo da noiva.
Ninguém fica ferido, à excepção de uns quantos penteados.
O ramo acaba por ser apanhado pela senhora da limpeza… por toda a sala.
• Os noivos abrem a pista. Alguém pergunta quando começa o Karaoke.
A noiva, chispando faíscas pelos olhos, diz que não teve tempo de providenciar esse entretenimento tão giro.
Alguém grita do fundo da sala, com ar triunfante, que trouxe a sua máquina de Karaoke. Com listas impressas e tudo.
A noiva, cuspindo impropérios e relâmpagos entre dentes, agradece ao anormal por ter salvo o Copo d´água.
• O noivo, ainda sob o efeito do gin martelado, agora tornado atómico depois de misturado com Jameson e Sushi, abre as hostilidades com a sua soberba interpretação livre de “Great balls of fire”, que faz questão de traduzir para “Grandes tomates de fogo”.
Faz um encore com “Should have known better”.
Leva o público ao desespero na parte do “aiaiaiaiaiaaaaiiiaaaaiii…. Should have known betteeeerrrrrr…”
• Uma amiga dos velhos tempos lembra-o de que não está no Kats em 1999. Aquele número não resultava na altura, e agora continua a não resultar.
Com a agravante de que agora, é casado.
• A família do noivo suspira de alívio. A da noiva suspira… porque suspira…
• Alguém interpreta esse grande clássico do Karaoke, “O papel principal”, de Adelaide Ferreira.
• A família do noivo agarra nos tupperwares e balda-se dali para fora.
• Alguém pede para desligar o ar condicionado.
Afinal está desligado.
Pede-se então à família da noiva que pare de suspirar.
• O noivo faz uma tentativa de Stand-up comedy. Tem a voz entaramelada “porque está cansado e dormiu mal com a ansiedade”. A malta ri-se por simpatia, e porque, afinal, é tudo gente educada.
A noiva olha fixamente para a biqueira dos sapatos.
A família da noiva… bem…
• Acaba a festa. O noivo insiste para que fiquem até à hora do jogo.
Alguém lhe diz que o jogo é só no dia a seguir.
DIA 29 DE JUNHO – O REGRESSO
• Debandada geral para Lisboa do pessoal que é de Lisboa, e para outras paragens do pessoal que é de outras paragens.
DIA 14 DE NOVEMBRO
• Torno a ser apanhado pela Polícia Marítima espanhola, desta vez algures no Estreito de Gibraltar, a bordo do que parece ter sido uma caixa de tâmaras.
Sou recambiado para Marrocos.
DIA 15 DE NOVEMBRO
• Desta vez vou dar a volta pela Tunísia. Ainda por cima, estou cheio de fome desde que cheguei ao Porto.

9 comentários:
Ainda n consegui deixar de rir, meu!
E já agora, à claquete alterada ou ficou igual à k mandas te?
É k já há quem te esteja a ameaçar com um boquete
Abraços e apita
Não recebeste o mail??
Vou enviar de novo.
Boquete?
Casamentos... pffffff
Sempre o mesmo protocolo: saltos altos que dão dor nos pés, comida em exagero com vista para a Etiópia, música horrível que nem um pé faz mexer...
Bem, mas depois de uma série de casamento por mês nos últimos 3 meses, confesso que começo a ficar imune e já não fico com urticária.. principalmente quando são diferentes do tradicional e ficamos numa mesa com amigos, é só rir... e beber, claro.
E quanto ao ramo, acredita que faço tudo para olhar para o lado e assobio como se nada se passasse...
No entanto, há sempre uma solteira desesperada que voa em câmara lenta com os braços esticados à minha frente para apanhá-lo!
Bem ditas despesperadas.... :)
Ass: Mulher independente e Auto-suficiente ;)
Mary:
Apesar da curiosidade, eu não uso saltos altos... :-)
E este será sem dúvida diferente do tradicional, quanto mais não seja pelos envolvidos.
E depois, segundo sei, não vou ter de tirar fotografias, o que para mim, é uma benção
:-))))))))))
Não vais ter de tirar fotografias ou não vais ter de ser fotografado?
...fotografado... fotografado....
Obrigado
lol
isso pensas tu.
enganam-te tão bem
Só por esta vez, podes levar tu a música...Mas não te habitues ...
Conta como foi!!!!
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