Às vezes questiono-me sobre que tipo de filme daria a minha vida.
Desde que me lembro de ser gente que ouço pessoas a afirmarem peremptoriamente que, à custa das suas desventuras e episódios caricatos, a sua vida daria um filme.
Quando eu não passava de inocente petiz, com ilusões e sonhos de estranhos locais imaginários com criaturas inverosímeis e estranhas - assim do género, centros comerciais ao domingo à tarde, mas com menos luz e uma música ambiente mais engraçada – lembro-me de pensar que aquela pessoa devia realmente levar uma vida muito emocionante. Nunca me hei-de esquecer de uma vizinha da minha avó, também já para o velhota, que repetia constantemente, entre dois suspiros: “A minha vida dava um filme!…”.
E eu imaginava a proveta senhora vestida de caqui, agarrada a um chicote e de chapéu na cabeça, a perseguir tesouros e a viver autênticas aventuras, que vinha depois ao fim da tarde, contar à minha avó, com ar cansado e as mãos enfiadas nos bolsos do avental florido.
Só mais tarde, quando cresci – há portanto, três semanas - compreendi que aquilo que eu pensava serem os relatos das suas aventuras, não passavam afinal de lamentos e insultos, dirigidos ao médico de família e ao posto de saúde onde se deslocava todos os dias, porque todos os dias lhe aparecia uma mancha num sítio diferente do corpo.
Ora, minha senhora (não sei se ainda será viva, ou se as manchas já a consumiram até às unhas dos pés), não lhe quero estragar a ilusão de um dia ver a sua vida retratada num ecrã que não seja o das radiografias, mas como argumento, a sua vida não vale muito…
Na melhor das hipóteses, um episódiozeco da “Anatomia de Grey”.
Não conte sequer com um telefilme interpretado pela Joan Collins, e muito menos um Blockbuster realizado pelo Scorcese. O facto de apelidar o Sistema Nacional de Saúde de “Máfia” não deve ser suficiente para convencê-lo.
E continuei pela vida fora, a ouvir pessoas afirmarem que a sua vida dava um filme. Mas eram raros os argumentos que me convenciam, ou que fossem sequer originais: Aquele separou-se, a outra foi despedida, aquele descobriu “acidentalmente” que afinal é gay… Argumentos demasiado batidos e sem ponta de originalidade, que Hollywood já explorou desde as comédias românticas com o Tom Hanks, às absurdas com o Ben Stiller.
Quem é que esta gente pensa que é para achar que as suas vidas enfadonhas nos arrastariam para uma sala de cinema e passar duas horas a ver aquela chachada? Separou-se? Arranja outra! Foi despedida? Trabalhasse! Foi por acidente? Ninguém o mandou apanhar aquela moeda de dois euros à porta do Trumps.
Ainda por cima, sem uma perseguição ou um tireco para quebrar a monotonia… Para isso já temos o Manuel de Oliveira, senhores!
Eu não sei que raio de filme daria a minha vida, mas gosto de pensar que seria, não digo um grande Blockbuster, mas pelo menos um daqueles filmes que são transmitidos às tantas da manhã e são vistos por montes de pessoas com insónias. Ou guardas nocturnos....
Até podia ser um daqueles que nem passa pelo cinema, e vai recambiado para o circuito de vídeo e dois meses depois está à venda nos escaparates 4,99 € do Continente. Eu tenho noção de que como argumento, a minha vida daria, quanto muito, uns episódios do “Seinfeld”, sendo que, a espaços, e infelizmente para mim, eu poderia desempenhar qualquer um daqueles personagens… Mas não era isto que eu queria. Eu queria aventura, emoção, romance, explosões, beijos à chuva e coronhadas de shotgun… Enfim, uma coisa com classe… ah, e muitas miúdas giras, claro.
Assim uma mistura de “Notting Hill” com “Pulp Fiction”, uns pózinhos de “Porky´s” e umas traulitadas à “Goodfellas”…
Ou então, eu e os meus amigos a fazermos um número musical do “Grease”… Também era giro…
A banda sonora… Todas as músicas que eu gosto. São muitas, eu sei, mas afinal, a vida é minha, o filme também, e eu é que sei se quero fazer um musical que junte Diana Krall e Dusty Springfield com Rolling Stones e Ben Harper, numa orgia musical apenas comparável às do Cristiano Ronaldo, com aquelas meninas inglesas, sempre muito atenciosas.
E o meu papel poderia ser interpretado por, assim de repente e tendo em conta o físico… Brad Pitt ou Jude Law!!!!
Não, esperem lá! Isto não é suposto ser um filme de gaja. É para ser um filme profundo, marcante, que se torne num filme de culto pelo argumento e não pelo protagonista – se bem que eu o mereça! É um filme para ser discutido à mesa do jantar e dar azo a discussões entre diferentes pontos de vista e abordagens à história.
A realização podia ser ao género de "24": o ecrã dividido em cinco ou seis imagens, todas em tempo real, para melhor transmitir o ritmo frenético e vertiginoso de eu a querer levantar dinheiro numa das imagens, e na outra, alguém a ocupar o multibanco durante duas horas a pagar contas, ver saldos, movimentos, mete cartão, tira cartão...
Já estou a imaginar o trailler: aquela voz típica, roufenha – “Eles vão descobrir… que se meteram com o bivalve errado!…” Explosões, gritos, membros a voar, eu a salvar a miúda das garras do bandido… Se bem que o mais próximo que eu tenho de um bandido na minha vida é o sacana do carteiro que no meio de todas as campainhas, escolhe sempre a minha para tocar. Mas por outro lado, ainda bem que é um vilão acessível, porque o actor principal seria o John Cusack!!!
Esse mesmo! O “Cool Geek” de Hollywood!
Assim posso ficar descansado com o futuro da Califórnia, porque ninguém vai distrair o Governador com um argumento tão poderoso como aquele a que a minha vida daria origem.
… Não é que a minha vida não seja já de si interessante, mas se quiserem que a vossa personagem entre no filme, digam qualquer coisa.
Eu gostava de fazer uma coisa com muitos extras.
Desde que me lembro de ser gente que ouço pessoas a afirmarem peremptoriamente que, à custa das suas desventuras e episódios caricatos, a sua vida daria um filme.
Quando eu não passava de inocente petiz, com ilusões e sonhos de estranhos locais imaginários com criaturas inverosímeis e estranhas - assim do género, centros comerciais ao domingo à tarde, mas com menos luz e uma música ambiente mais engraçada – lembro-me de pensar que aquela pessoa devia realmente levar uma vida muito emocionante. Nunca me hei-de esquecer de uma vizinha da minha avó, também já para o velhota, que repetia constantemente, entre dois suspiros: “A minha vida dava um filme!…”.
E eu imaginava a proveta senhora vestida de caqui, agarrada a um chicote e de chapéu na cabeça, a perseguir tesouros e a viver autênticas aventuras, que vinha depois ao fim da tarde, contar à minha avó, com ar cansado e as mãos enfiadas nos bolsos do avental florido.
Só mais tarde, quando cresci – há portanto, três semanas - compreendi que aquilo que eu pensava serem os relatos das suas aventuras, não passavam afinal de lamentos e insultos, dirigidos ao médico de família e ao posto de saúde onde se deslocava todos os dias, porque todos os dias lhe aparecia uma mancha num sítio diferente do corpo.
Ora, minha senhora (não sei se ainda será viva, ou se as manchas já a consumiram até às unhas dos pés), não lhe quero estragar a ilusão de um dia ver a sua vida retratada num ecrã que não seja o das radiografias, mas como argumento, a sua vida não vale muito…
Na melhor das hipóteses, um episódiozeco da “Anatomia de Grey”.
Não conte sequer com um telefilme interpretado pela Joan Collins, e muito menos um Blockbuster realizado pelo Scorcese. O facto de apelidar o Sistema Nacional de Saúde de “Máfia” não deve ser suficiente para convencê-lo.
E continuei pela vida fora, a ouvir pessoas afirmarem que a sua vida dava um filme. Mas eram raros os argumentos que me convenciam, ou que fossem sequer originais: Aquele separou-se, a outra foi despedida, aquele descobriu “acidentalmente” que afinal é gay… Argumentos demasiado batidos e sem ponta de originalidade, que Hollywood já explorou desde as comédias românticas com o Tom Hanks, às absurdas com o Ben Stiller.
Quem é que esta gente pensa que é para achar que as suas vidas enfadonhas nos arrastariam para uma sala de cinema e passar duas horas a ver aquela chachada? Separou-se? Arranja outra! Foi despedida? Trabalhasse! Foi por acidente? Ninguém o mandou apanhar aquela moeda de dois euros à porta do Trumps.
Ainda por cima, sem uma perseguição ou um tireco para quebrar a monotonia… Para isso já temos o Manuel de Oliveira, senhores!
Eu não sei que raio de filme daria a minha vida, mas gosto de pensar que seria, não digo um grande Blockbuster, mas pelo menos um daqueles filmes que são transmitidos às tantas da manhã e são vistos por montes de pessoas com insónias. Ou guardas nocturnos....
Até podia ser um daqueles que nem passa pelo cinema, e vai recambiado para o circuito de vídeo e dois meses depois está à venda nos escaparates 4,99 € do Continente. Eu tenho noção de que como argumento, a minha vida daria, quanto muito, uns episódios do “Seinfeld”, sendo que, a espaços, e infelizmente para mim, eu poderia desempenhar qualquer um daqueles personagens… Mas não era isto que eu queria. Eu queria aventura, emoção, romance, explosões, beijos à chuva e coronhadas de shotgun… Enfim, uma coisa com classe… ah, e muitas miúdas giras, claro.
Assim uma mistura de “Notting Hill” com “Pulp Fiction”, uns pózinhos de “Porky´s” e umas traulitadas à “Goodfellas”…
Ou então, eu e os meus amigos a fazermos um número musical do “Grease”… Também era giro…
A banda sonora… Todas as músicas que eu gosto. São muitas, eu sei, mas afinal, a vida é minha, o filme também, e eu é que sei se quero fazer um musical que junte Diana Krall e Dusty Springfield com Rolling Stones e Ben Harper, numa orgia musical apenas comparável às do Cristiano Ronaldo, com aquelas meninas inglesas, sempre muito atenciosas.
E o meu papel poderia ser interpretado por, assim de repente e tendo em conta o físico… Brad Pitt ou Jude Law!!!!
Não, esperem lá! Isto não é suposto ser um filme de gaja. É para ser um filme profundo, marcante, que se torne num filme de culto pelo argumento e não pelo protagonista – se bem que eu o mereça! É um filme para ser discutido à mesa do jantar e dar azo a discussões entre diferentes pontos de vista e abordagens à história.
A realização podia ser ao género de "24": o ecrã dividido em cinco ou seis imagens, todas em tempo real, para melhor transmitir o ritmo frenético e vertiginoso de eu a querer levantar dinheiro numa das imagens, e na outra, alguém a ocupar o multibanco durante duas horas a pagar contas, ver saldos, movimentos, mete cartão, tira cartão...
Já estou a imaginar o trailler: aquela voz típica, roufenha – “Eles vão descobrir… que se meteram com o bivalve errado!…” Explosões, gritos, membros a voar, eu a salvar a miúda das garras do bandido… Se bem que o mais próximo que eu tenho de um bandido na minha vida é o sacana do carteiro que no meio de todas as campainhas, escolhe sempre a minha para tocar. Mas por outro lado, ainda bem que é um vilão acessível, porque o actor principal seria o John Cusack!!!
Esse mesmo! O “Cool Geek” de Hollywood!
Assim posso ficar descansado com o futuro da Califórnia, porque ninguém vai distrair o Governador com um argumento tão poderoso como aquele a que a minha vida daria origem.
… Não é que a minha vida não seja já de si interessante, mas se quiserem que a vossa personagem entre no filme, digam qualquer coisa.
Eu gostava de fazer uma coisa com muitos extras.

5 comentários:
Meu cherne ammi, sobre o Seinfeld, acho k seria uma mescla de George/Kramer.
Sobre o "grease", não me parece k ficasses lá mt bem com akela roupinha da Olivia Newton kk coisa...
Mas dava um filme fixe, principalmente se fosse num bar, tipo Chears ou melhor à Homer goes to the bar.
Já temos o nosso moe...Beer me!
OK... Mas aviso já que eu não sou o Barney! Só consigo arrotar o alfabeto até ao J....
Conheço uma pessoa que suspira constantemente essa expressão prosaica "Aahhhiiiihhh.... a minha vida dava um filme....". Eu não acho que a minha vida daria um filme de género definido. Mas gostava de chegar aos 80 e ter capacidade para escrever a minha vida num filme rapsódia género dramáticosuspenthrilleromanceado.Para os meus netos se orgulharem como eu me orgulho da anciania que me rodeia.
Mary:
Esqueceste-te da comédia...
Devia ser dramáticómicosuspenthrilleromanceado!
yaaaaaaaaaa.... uma vida sem comédia não pode ser!!!!!!!!!!!!! Pacotes de comédia!
Qual é o problema da identificação?
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