Okay, first things fuckin' last!*
Existem pessoas que se recordam de filmes que as marcaram pelos mais diversos motivos: o enredo, os actores, a banda sonora, a realização, etc, etc, etc.
Eu não digo que esses factores não sejam importantes para apreciar um filme e guardá-lo na memória, mas… no meu caso, aquilo que faz com que determinado filme fique para sempre guardado no baú das recordações, juntamente com os puzzles que consegui resolver e as notas positivas a matemática, são aquilo a que eu chamo “cool lines”.
São aquelas deixas geniais que me fazem sair do cinema a desejar ver-me confrontado com uma situação parecida à do protagonista do filme, para poder largar aquela frase tão a calhar naquela circunstância, tão carregada de sarcasmo e humor que, se debitada pela minha boca, faria de mim o “King of Coolness” lá do bairro.
De certeza que isso também vos acontece! Já lá vão os tempos de infância em que o meu imaginário era preenchido por seres estranhos, bebidas exóticas e mulheres lascivas.
Não há mulheres lascivas na minha vida, a cerveja mexicana é onde eu traço o meu limite no que a bebidas exóticas diz respeito, e em relação a seres estranhos… bom… conheço alguns, mas não são como eu os imaginava.
Desde que comecei a apreciar cinema o meu imaginário começou a ser povoado por hipotéticas situações dignas de uma “cool line”. É por isso que alguns dos meus filmes favoritos são péssimos do ponto de vista da realização ou interpretação, mas mesmo assim, figuram na lista. Porquê? Têm uma, ou várias cool lines que eu adoraria dizer em qualquer circunstância.
Por exemplo, um dos meus filmes preferidos de todos os tempos é “Estrada de Fogo”, de 1984. O filme não passa de um cliché com uma banda sonora porreira e um actor principal de quinta categoria. Mas tem montes de “cool lines”, como esta: quando no fim do filme, e depois de salvar a donzela, o herói deixa a cidade, rumo a um destino incerto, com nada mais que a roupa do corpo e uma shotgun debaixo da gabardine, alguém lhe diz: “Take it easy, Cody.” Ao que o herói responde: “I'll take it where I can get it”.
Porra, quem me dera ter a possibilidade de dizer isto! É deste material que se fazem as lendas! O problema é que ninguém se despede de mim em inglês.
E geralmente é com um “Ainda aqui estás?” ou “Sai do meio da estrada imbecil!”
É complicado arranjar “cool lines” para aplicar no nosso dia a dia. Ou porque só se aplicam em determinadas circunstâncias, muito específicas, ou simplesmente porque perdem toda a piada quando traduzidas para português. Uma das coisas que eu mais gostava de ter possibilidade de dizer é a deixa de Bruce Willis na saga “Die Hard”: “Yippie-kay-yay, motherfucker!”
Mas isso implicava que eu me envolvesse numa discussãozeca numa bomba de gasolina, por exemplo com alguém que quisesse passar-me à frente, e aquilo descambasse comigo a regar o tipo com gasolina para depois sacar do meu Zippo e pegar fogo ao gajo, ao som do click do isqueiro, enquanto dizia a frase. Mas não faria muito sentido dizê-la em inglês… Seria mais algo como “Yippie-kay-yay, ó seu cabrão!”.
Convenhamos que a sonoridade não é a mesma. Não tem o mesmo impacto, e receio mesmo que o tipo acabasse por não pegar fogo porque se mijaria a rir.
A triste realidade é que a língua de Camões pode ser muito romântica no que toca a cantar os feitos das Descobertas, por mares nunca dantes navegados, a desgraçada relação de Pedro e Inês que fez com que a coitada perdesse a cabeça, ou a quantidade de sal do oceano que são lágrimas de Portugal, mas no que diz respeito a frases que fariam as miúdas suspirar por nós, tem exactamente o mesmo impacto que o Albanês ou o Mandarim: Zero.
É claro que há coisas que não perdem a piada e a “coolness” na tradução. No filme “Era uma vez um rapaz”, a personagem interpretada por Hugh Grant, quando confrontada com a sua existência solitária e superficial de Playboy, com a célebre expressão ”Nenhum Homem é uma ilha”, rapidamente responde “Eu sou uma ilha! Eu sou Ibiza!”
Esta deve ter sido a única “cool line” que eu consegui aplicar em toda a minha vida, e não porque viva uma vida de Playboy superficial e rodeado de mulheres - Fuck!! (uuuh…outra cool line…) - , mas porque comprei um carro com o nome da dita ilha…
OK, não é a mesma coisa, não tem a mesma “coolness”, mas foi bem aplicada.
Além disso não posso ficar a vida toda à espera de uma oportunidade para dizer: ”You talking to me? Well I'm the only one here. Who the fuck do you think you're talking to? Oh yeah? OK.” E de seguida disparar uma Magnum. É que essa possibilidade poderá nunca chegar. E além disso, como é que se traduz isto para português com sotaque italiano? Isto exclui todas as “cool lines” do De Niro! Lá está a porra da língua de Camões a atrapalhar os meus esforços para ser um tipo que todos os gajos invejassem e todas as miúdas desejassem.
As descobertas foram há 500 anos!!!!!
Aqui poderia ser aplicado o “Move the fuck on!” de Edward Norton em “A última Hora”, quando ele se imagina a dizer à comunidade negra que a escravatura acabou há quase dois séculos.
Julliette Lewis em “Assassinos Natos”: “You made my shitlist!”. Francamente, senhores... Como é que isto vai soar bem no romantismo da língua de Camões? Esta porra não é fado. “Estás na minha lista de merda”? Que piada é que isso tem?
George Clooney em “Aberto até de Madrugada”: “OK Ramblers, let´s get ramblin´…”, que seria mais ou menos: “Muito bem vagabundos, vamos lá vagabundear”. Ora, eu não vou dizer isto a ninguém. Provavelmente ninguém iria vagabundear para lado nenhum e eu seria o alvo de chacota durante duas semanas… Mas porra, como eu gostava de dizer esta!
Um dos piores filmes que eu tive a infelicidade de ver em toda a minha vida, e que dá pelo nome de “Coyote Bar”, tem uma das melhores “cool lines” dos últimos tempos, que pode perfeitamente ser traduzida, sem perder impacto: ”Só existem três homens na minha vida: Jonny, Jack e Jim” – uma óbvia referência a três marcas de Whisky.
O problema é que isto dito por um gajo – eu sou um gajo – poderia parecer, sei lá… Gay.
Um dia lembrei-me de uma grande “catch phrase” de James Bond, relacionada com bebidas: o famoso Dry Martini (uma mistura de Gin com vermute seco e uma azeitona verde espetada num palito), “Shaken, not Stirred”, ou seja, mexido, não agitado. Mas desisti quando a empregada me perguntou, com ar esbugalhado se eu queria o Dry Martini branco ou tinto, e se eu me importava que ela usasse uma cereja cristalizada porque as azeitonas tinham acabado ao almoço.
E depois existem as “cool lines” que eu adorava que me dissessem a mim. Lembram-se do “Top Gun”? Quando Kelly McGillis diz a Tom Cruise: “Maverick, you big stud… Take me to bed or lose me forever…”
Eu adorava que uma mulher me dissesse isto. Mas não em português!!!! É que assim soa mal…. Se alguma miúda me sussurrasse ao ouvido: “_____, seu grande garanhão… Leva-me para a cama ou perde-me para sempre…”, a minha reacção seria, provavelmente…
…
POOOOOORRRRRRAAAA! Vamos nessa Vanessa, que a língua de Camões pode ser muito romântica, sim senhor, mas a minha pelo menos ainda está viva!!!!!
...É impressão minha, ou acabei de inventar uma "cool line" que soa bem em português?...
*Nice Guy Eddie, personagem de “Reservoir Dogs”.
A tradução para a língua do zarolho deu algo como: “Muito bem, vamos lá começar pelo início”…
...e agora, algo de extremo mau gosto, seja em que língua for...
Existem pessoas que se recordam de filmes que as marcaram pelos mais diversos motivos: o enredo, os actores, a banda sonora, a realização, etc, etc, etc.
Eu não digo que esses factores não sejam importantes para apreciar um filme e guardá-lo na memória, mas… no meu caso, aquilo que faz com que determinado filme fique para sempre guardado no baú das recordações, juntamente com os puzzles que consegui resolver e as notas positivas a matemática, são aquilo a que eu chamo “cool lines”.
São aquelas deixas geniais que me fazem sair do cinema a desejar ver-me confrontado com uma situação parecida à do protagonista do filme, para poder largar aquela frase tão a calhar naquela circunstância, tão carregada de sarcasmo e humor que, se debitada pela minha boca, faria de mim o “King of Coolness” lá do bairro.
De certeza que isso também vos acontece! Já lá vão os tempos de infância em que o meu imaginário era preenchido por seres estranhos, bebidas exóticas e mulheres lascivas.
Não há mulheres lascivas na minha vida, a cerveja mexicana é onde eu traço o meu limite no que a bebidas exóticas diz respeito, e em relação a seres estranhos… bom… conheço alguns, mas não são como eu os imaginava.
Desde que comecei a apreciar cinema o meu imaginário começou a ser povoado por hipotéticas situações dignas de uma “cool line”. É por isso que alguns dos meus filmes favoritos são péssimos do ponto de vista da realização ou interpretação, mas mesmo assim, figuram na lista. Porquê? Têm uma, ou várias cool lines que eu adoraria dizer em qualquer circunstância.
Por exemplo, um dos meus filmes preferidos de todos os tempos é “Estrada de Fogo”, de 1984. O filme não passa de um cliché com uma banda sonora porreira e um actor principal de quinta categoria. Mas tem montes de “cool lines”, como esta: quando no fim do filme, e depois de salvar a donzela, o herói deixa a cidade, rumo a um destino incerto, com nada mais que a roupa do corpo e uma shotgun debaixo da gabardine, alguém lhe diz: “Take it easy, Cody.” Ao que o herói responde: “I'll take it where I can get it”.
Porra, quem me dera ter a possibilidade de dizer isto! É deste material que se fazem as lendas! O problema é que ninguém se despede de mim em inglês.
E geralmente é com um “Ainda aqui estás?” ou “Sai do meio da estrada imbecil!”
É complicado arranjar “cool lines” para aplicar no nosso dia a dia. Ou porque só se aplicam em determinadas circunstâncias, muito específicas, ou simplesmente porque perdem toda a piada quando traduzidas para português. Uma das coisas que eu mais gostava de ter possibilidade de dizer é a deixa de Bruce Willis na saga “Die Hard”: “Yippie-kay-yay, motherfucker!”
Mas isso implicava que eu me envolvesse numa discussãozeca numa bomba de gasolina, por exemplo com alguém que quisesse passar-me à frente, e aquilo descambasse comigo a regar o tipo com gasolina para depois sacar do meu Zippo e pegar fogo ao gajo, ao som do click do isqueiro, enquanto dizia a frase. Mas não faria muito sentido dizê-la em inglês… Seria mais algo como “Yippie-kay-yay, ó seu cabrão!”.
Convenhamos que a sonoridade não é a mesma. Não tem o mesmo impacto, e receio mesmo que o tipo acabasse por não pegar fogo porque se mijaria a rir.
A triste realidade é que a língua de Camões pode ser muito romântica no que toca a cantar os feitos das Descobertas, por mares nunca dantes navegados, a desgraçada relação de Pedro e Inês que fez com que a coitada perdesse a cabeça, ou a quantidade de sal do oceano que são lágrimas de Portugal, mas no que diz respeito a frases que fariam as miúdas suspirar por nós, tem exactamente o mesmo impacto que o Albanês ou o Mandarim: Zero.
É claro que há coisas que não perdem a piada e a “coolness” na tradução. No filme “Era uma vez um rapaz”, a personagem interpretada por Hugh Grant, quando confrontada com a sua existência solitária e superficial de Playboy, com a célebre expressão ”Nenhum Homem é uma ilha”, rapidamente responde “Eu sou uma ilha! Eu sou Ibiza!”
Esta deve ter sido a única “cool line” que eu consegui aplicar em toda a minha vida, e não porque viva uma vida de Playboy superficial e rodeado de mulheres - Fuck!! (uuuh…outra cool line…) - , mas porque comprei um carro com o nome da dita ilha…
OK, não é a mesma coisa, não tem a mesma “coolness”, mas foi bem aplicada.
Além disso não posso ficar a vida toda à espera de uma oportunidade para dizer: ”You talking to me? Well I'm the only one here. Who the fuck do you think you're talking to? Oh yeah? OK.” E de seguida disparar uma Magnum. É que essa possibilidade poderá nunca chegar. E além disso, como é que se traduz isto para português com sotaque italiano? Isto exclui todas as “cool lines” do De Niro! Lá está a porra da língua de Camões a atrapalhar os meus esforços para ser um tipo que todos os gajos invejassem e todas as miúdas desejassem.
As descobertas foram há 500 anos!!!!!
Aqui poderia ser aplicado o “Move the fuck on!” de Edward Norton em “A última Hora”, quando ele se imagina a dizer à comunidade negra que a escravatura acabou há quase dois séculos.
Julliette Lewis em “Assassinos Natos”: “You made my shitlist!”. Francamente, senhores... Como é que isto vai soar bem no romantismo da língua de Camões? Esta porra não é fado. “Estás na minha lista de merda”? Que piada é que isso tem?
George Clooney em “Aberto até de Madrugada”: “OK Ramblers, let´s get ramblin´…”, que seria mais ou menos: “Muito bem vagabundos, vamos lá vagabundear”. Ora, eu não vou dizer isto a ninguém. Provavelmente ninguém iria vagabundear para lado nenhum e eu seria o alvo de chacota durante duas semanas… Mas porra, como eu gostava de dizer esta!
Um dos piores filmes que eu tive a infelicidade de ver em toda a minha vida, e que dá pelo nome de “Coyote Bar”, tem uma das melhores “cool lines” dos últimos tempos, que pode perfeitamente ser traduzida, sem perder impacto: ”Só existem três homens na minha vida: Jonny, Jack e Jim” – uma óbvia referência a três marcas de Whisky.
O problema é que isto dito por um gajo – eu sou um gajo – poderia parecer, sei lá… Gay.
Um dia lembrei-me de uma grande “catch phrase” de James Bond, relacionada com bebidas: o famoso Dry Martini (uma mistura de Gin com vermute seco e uma azeitona verde espetada num palito), “Shaken, not Stirred”, ou seja, mexido, não agitado. Mas desisti quando a empregada me perguntou, com ar esbugalhado se eu queria o Dry Martini branco ou tinto, e se eu me importava que ela usasse uma cereja cristalizada porque as azeitonas tinham acabado ao almoço.
E depois existem as “cool lines” que eu adorava que me dissessem a mim. Lembram-se do “Top Gun”? Quando Kelly McGillis diz a Tom Cruise: “Maverick, you big stud… Take me to bed or lose me forever…”
Eu adorava que uma mulher me dissesse isto. Mas não em português!!!! É que assim soa mal…. Se alguma miúda me sussurrasse ao ouvido: “_____, seu grande garanhão… Leva-me para a cama ou perde-me para sempre…”, a minha reacção seria, provavelmente…
…
POOOOOORRRRRRAAAA! Vamos nessa Vanessa, que a língua de Camões pode ser muito romântica, sim senhor, mas a minha pelo menos ainda está viva!!!!!
...É impressão minha, ou acabei de inventar uma "cool line" que soa bem em português?...
*Nice Guy Eddie, personagem de “Reservoir Dogs”.
A tradução para a língua do zarolho deu algo como: “Muito bem, vamos lá começar pelo início”…
...e agora, algo de extremo mau gosto, seja em que língua for...

4 comentários:
Mau Gosto? Impossível ficar indiferente ao "Take my breath away" mesmo que toque vezes e vezes sem conta no Oceano Pacífico. Faz parte daqueles clássicos que marcaram quem viu na altura..e agora, são poucos ou nenhuns, os filmes que marcam por muito tempo. São substituídos por 1500 novos que surgem todos os anos. Fiquei com saudades de o rever, confesso.
Uma quote fantástica (um pouco difícil de decorar e de a ler sem atirar involuntariamente alguns gafanhotos e fazer cara feia): Kill Bill Vol.1, Lucy Lu maravilhosamente personificada em O-Ren-Ishii:
"As your leader, I encourage you from time to time, and always in a respectful manner, to question my logic. If you're unconvinced that a particular plan of action I've decided is the wisest, tell me so, but allow me to convince you and I promise you right here and now, no subject will ever be taboo. Except, of course, the subject that was just under discussion. The price you pay for bringing up either my Chinese or American heritage as a negative is... I collect your fucking head. Just like this fucker here. Now, if any of you sons of bitches got anything else to say, NOW'S THE FUCKING TIME!
I didn't think so."
Uma quote um pouco autoritariofascista, mas na hora do desabafo... vale tudo.
(também tentei traduzi-la na língua lusa e...concordo, não fica nada bem!)
Mary:
Estava capaz de gozar contigo por causa do "Take my breath away"... Só não o faço porque:
a) Tenho o sacana do filme em DVD...
b) A julgar pela tua quote tenho algum receio que saques de uma espada "Hatori Hanzo" e me cortes aos bocadinhos...
...mas do mal o menos... seria pior se estivéssemos a falar do "Oficial e Cavalheiro" e respectiva banda sonora...
... Não gostaste disso, pois não???!!!
Desculpa a desilusão mas "Oficial e Cavalheiro" é outro daqueles clássicos lindos. E mais, eu tinha um poster do Richard Gere no meu quarto de jovem adolescente com outros posters de ídolos "bonzões"!! Como vês, tive uma adolescência perfeitamente normal... Todos juntos: "Love lift us up where we belong, where the eagles fly on a mountain hiiighhhh..."
... Oh não... O que virá a seguir?....
Dirty Dancing? Flashdande? Uma Casa na Pradaria?.....
Os posters eu até compreendo. Eu próprio só não tinha posters da Sabrina e da Samantha Fox porque os meus pais diziam que eu só os poderia pendurar na parede quando soubesse arranjar carburadores e panelas de escape.
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