Há pessoas que odeiam fazer compras por uma infinidade de motivos: não querem gastar dinheiro, odeiam as confusões das lojas, aborrecem-se por terem de carregar sacos, ou não gostam de andar pelos centros comerciais passeando pela mão rolos de papel higiénico, pacotes de pensos higiénicos ou raviollis congelados. É justo.
Eu também não sou grande adepto desse desporto. Nem é pelo dinheiro que gasto, porque, infelizmente, gosto muito de o gastar. O problema está no dinheiro que recebo! Muitas vezes, quando estou na fila para pagar e chega finalmente a minha vez, as notas acabaram com o gajo que estava à minha frente, que pagou uma conta de sete euros e oitenta e cinco cêntimos com uma nota de cinquenta ou cem euros. E quem se lixa sou eu, que tenho de ouvir a empregada debitar o costumeiro discurso: “Desculpe lá, mas tem de ser assim…” e crava-me com centenas de moedas de um, dois e cinco cêntimos nas mãos!
Se tiver sorte, ainda recebo em moedas de dez cêntimos, mas para isso, é preciso que nesse dia a Cassiopeia esteja bem visível no céu. Já não me lembro de quando foi a última vez que recebi um troco sem ter de pôr as mão em concha, para sair depois do estabelecimento, com os bolsos carregados de níquel, arrastando os pés como se fosse uma alma penada, e largando à minha passagem um tilintar metálico semelhante ao arrastar de correntes…
Daquelas bem grandes… Com bolas de ferro e tudo…
Tudo isto não seria tão dramático se a quantidade tivesse equivalência no valor, mas qual quê… Sempre que chego a casa e esvazio os bolsos, perco dez minutos a contar moedinhas – se não me enganar, caso contrário, tenho de começar de novo – para descobrir que rasguei o forro dos bolsos pela módica quantia de… nem dois euros...
Alguém deve achar que eu tenho cara de porquinho de porcelana…
Ora, para piorar ainda mais este já de si terrível e pesado fardo, numa das vezes que me propus contar o dinheiro que tinha nos bolsos, dou de caras com uma moeda de cem escudos! Isso mesmo! Cem paus! Um pintor! Cem parrecos! Com a efígie de Pedro Nunes – ele mesmo – segurando uma esfera armilar… Que algum espertalhão me havia passado como sendo dois euros, numa das tais molhadas de moedas e moedinhas que eu normalmente recebo como troco.
Podiam ter-me passado aquilo como uma moeda de vinte cêntimos, que o estrago não seria assim tão grande e eu talvez até a guardasse como recordação, num desses ataques de nostalgia e saudosismo pelo passado. Mas não, passaram-ma como sendo dois euros. Fiquei a arder com um euro e meio! Se aquela porcaria já não valia grande coisa no tempo do escudo, agora então, vale tanto como uma rabanada de vento.
Vale o peso que me faz no bolso, só.
Ainda por cima, isto é como o jogo do “Passa a outro e não ao mesmo”. Não posso tentar passar isto ao gajo que me passou a mim, porque ele vai estar à coca. Ele já a passou a “outro”, agora o “outro” que se lixe!
Portanto, vou ter de fazer o mesmo, a outro incauto distraído – sim, porque isto foi mera distração da minha parte...
O problema é que já ando com a porcaria da moeda de cem paus no bolso há para aí, um mês, e ainda não me consegui livrar dela. Sempre que tento sou apanhado, e depois lá tenho de disfarçar com o discurso: “Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…”
A primeira vez que tentei foi num café. Tinha de pagar um euro e trinta e cinco cêntimos, correspondentes a um café e um bolo de arroz. Quando chegou a altura de pagar, puxei dos cem paus e coloquei-os estrategicamente camuflados entre a chávena de café e o pires do bolo de arroz, mas de forma a que se notasse que aquilo era uma moeda. Comecei a dirigir-me, furtivamente, em direcção à porta, enquanto dizia ao empregado: “Olhe, está aqui o dinheiro. Fique com o troco, sim?” E dirigi-me para a porta, triunfante, com uma sensação de alívio e leveza no bolso. Deve ser mais ou menos isto que o Ethan Hunt sente, depois de escapar ileso a mais uma “Missão Impossível”. Só me faltava a miúda gira pela mão…
Até que ouço o empregado gritar nas minhas costas: “Olhe! Espere aí!”
Todo o café se silenciou e se virou para mim, na certa, pensando que eu queria fugir sem pagar!
Lembro-me de ter pensado: ”Deus: eu sei que ultimamente não tenho falado muito contigo, mas por favor, faz com que eu me tenha esquecido do isqueiro em cima do balcão. Eu prometo tomar mais atenção ao troco e nunca mais ser enganado…”
Aproximei-me do balcão com o sorriso mais encantador que consegui colocar na minha face em pânico:
- Olhe que isto não são dois euros. Isto é uma moeda de cem paus. Olhe que isto já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E paguei a conta. Com dois euros porque, afinal, já tinha dito que podiam ficar com o troco…
De outra vez tentei passar a estuporada moeda no supermercado, pagando-lhes na mesma moeda, que é como quem diz, na mesma quantidade absurda de moedas, na esperança de que o sacana do Pedro Nunes mais a sua esfera armilar passassem despercebidos no meio daquela chaparia toda. Descarreguei nas mãos delicadas da operadora de caixa todo o espólio dos meus bolsos – Pedro Nunes incluído – e principiei, com ar enfiado, a guardar as compras nos sacos, como se nada se fosse. Mas pude ver pelo canto do olho que a empregada da caixa achou algo estranho naquela montanha de cobre – é que a parte exterior, que na moeda de dois euros é prateada, na minha moeda de cem paus, é assim a dar para o tom de ferrugem. E a gaja apercebeu-se! Porra!
Tudo teria sido tão mais simples, se em vez daquela estúpida moeda, me tivessem passado uma nota de Monopólio, caraças!
- Ó senhor… Olhe que isto não são dois euros. São cem escudos. Já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E ando nisto há um mês… Até já deixei a porra da moeda misturada na gorjeta do restaurante onde costumo almoçar, Mas no dia seguinte, ao trazerem-me a bandeja com o troco, adivinhem quem lá estava. Exacto. O C(…) do Pedro Nunes mais a P(…) da sua esfera armilar, aconchegados no aro cor de ferrugem, da República Portuguesa, que teima em perseguir-me. Ao pousar a bandeja do troco, o empregado disse-me, chispando faíscas pelos olhos:
- Ouve lá, pá… Ontem deixaste isto na gorja? Isto não são dois euros, pá. É uma moeda de cem paus. Esta porcaria já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E tive de repor a gorjeta do dia anterior…
Em desespero de causa, há uns dias, tentei dá-la a um arrumador de automóveis:
- F(…)-se! ´Tás a gozar ou quê? Esta merda não são dois euros, pá... Esta merda é uma moeda de cem paus. Isto já não se usa, c(…)!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
- Deixa-te mas é de tangas e cospe lá a guita se não queres que te f(…) os vidros ao carro!….
Que isto me sirva de lição: a partir de agora, olhinhos bem abertos, porque o maior cego é aquele que não quer ver…
...mas mais cego do que esse, é aquele que não CONSEGUE mesmo ver!
Está-me cá a parecer que vou levar o Pedro Nunes e a sua esfera armilar a dar um passeio de metro pela baixa…
Eu também não sou grande adepto desse desporto. Nem é pelo dinheiro que gasto, porque, infelizmente, gosto muito de o gastar. O problema está no dinheiro que recebo! Muitas vezes, quando estou na fila para pagar e chega finalmente a minha vez, as notas acabaram com o gajo que estava à minha frente, que pagou uma conta de sete euros e oitenta e cinco cêntimos com uma nota de cinquenta ou cem euros. E quem se lixa sou eu, que tenho de ouvir a empregada debitar o costumeiro discurso: “Desculpe lá, mas tem de ser assim…” e crava-me com centenas de moedas de um, dois e cinco cêntimos nas mãos!
Se tiver sorte, ainda recebo em moedas de dez cêntimos, mas para isso, é preciso que nesse dia a Cassiopeia esteja bem visível no céu. Já não me lembro de quando foi a última vez que recebi um troco sem ter de pôr as mão em concha, para sair depois do estabelecimento, com os bolsos carregados de níquel, arrastando os pés como se fosse uma alma penada, e largando à minha passagem um tilintar metálico semelhante ao arrastar de correntes…
Daquelas bem grandes… Com bolas de ferro e tudo…
Tudo isto não seria tão dramático se a quantidade tivesse equivalência no valor, mas qual quê… Sempre que chego a casa e esvazio os bolsos, perco dez minutos a contar moedinhas – se não me enganar, caso contrário, tenho de começar de novo – para descobrir que rasguei o forro dos bolsos pela módica quantia de… nem dois euros...
Alguém deve achar que eu tenho cara de porquinho de porcelana…
Ora, para piorar ainda mais este já de si terrível e pesado fardo, numa das vezes que me propus contar o dinheiro que tinha nos bolsos, dou de caras com uma moeda de cem escudos! Isso mesmo! Cem paus! Um pintor! Cem parrecos! Com a efígie de Pedro Nunes – ele mesmo – segurando uma esfera armilar… Que algum espertalhão me havia passado como sendo dois euros, numa das tais molhadas de moedas e moedinhas que eu normalmente recebo como troco.
Podiam ter-me passado aquilo como uma moeda de vinte cêntimos, que o estrago não seria assim tão grande e eu talvez até a guardasse como recordação, num desses ataques de nostalgia e saudosismo pelo passado. Mas não, passaram-ma como sendo dois euros. Fiquei a arder com um euro e meio! Se aquela porcaria já não valia grande coisa no tempo do escudo, agora então, vale tanto como uma rabanada de vento.
Vale o peso que me faz no bolso, só.
Ainda por cima, isto é como o jogo do “Passa a outro e não ao mesmo”. Não posso tentar passar isto ao gajo que me passou a mim, porque ele vai estar à coca. Ele já a passou a “outro”, agora o “outro” que se lixe!
Portanto, vou ter de fazer o mesmo, a outro incauto distraído – sim, porque isto foi mera distração da minha parte...
O problema é que já ando com a porcaria da moeda de cem paus no bolso há para aí, um mês, e ainda não me consegui livrar dela. Sempre que tento sou apanhado, e depois lá tenho de disfarçar com o discurso: “Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…”
A primeira vez que tentei foi num café. Tinha de pagar um euro e trinta e cinco cêntimos, correspondentes a um café e um bolo de arroz. Quando chegou a altura de pagar, puxei dos cem paus e coloquei-os estrategicamente camuflados entre a chávena de café e o pires do bolo de arroz, mas de forma a que se notasse que aquilo era uma moeda. Comecei a dirigir-me, furtivamente, em direcção à porta, enquanto dizia ao empregado: “Olhe, está aqui o dinheiro. Fique com o troco, sim?” E dirigi-me para a porta, triunfante, com uma sensação de alívio e leveza no bolso. Deve ser mais ou menos isto que o Ethan Hunt sente, depois de escapar ileso a mais uma “Missão Impossível”. Só me faltava a miúda gira pela mão…
Até que ouço o empregado gritar nas minhas costas: “Olhe! Espere aí!”
Todo o café se silenciou e se virou para mim, na certa, pensando que eu queria fugir sem pagar!
Lembro-me de ter pensado: ”Deus: eu sei que ultimamente não tenho falado muito contigo, mas por favor, faz com que eu me tenha esquecido do isqueiro em cima do balcão. Eu prometo tomar mais atenção ao troco e nunca mais ser enganado…”
Aproximei-me do balcão com o sorriso mais encantador que consegui colocar na minha face em pânico:
- Olhe que isto não são dois euros. Isto é uma moeda de cem paus. Olhe que isto já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E paguei a conta. Com dois euros porque, afinal, já tinha dito que podiam ficar com o troco…
De outra vez tentei passar a estuporada moeda no supermercado, pagando-lhes na mesma moeda, que é como quem diz, na mesma quantidade absurda de moedas, na esperança de que o sacana do Pedro Nunes mais a sua esfera armilar passassem despercebidos no meio daquela chaparia toda. Descarreguei nas mãos delicadas da operadora de caixa todo o espólio dos meus bolsos – Pedro Nunes incluído – e principiei, com ar enfiado, a guardar as compras nos sacos, como se nada se fosse. Mas pude ver pelo canto do olho que a empregada da caixa achou algo estranho naquela montanha de cobre – é que a parte exterior, que na moeda de dois euros é prateada, na minha moeda de cem paus, é assim a dar para o tom de ferrugem. E a gaja apercebeu-se! Porra!
Tudo teria sido tão mais simples, se em vez daquela estúpida moeda, me tivessem passado uma nota de Monopólio, caraças!
- Ó senhor… Olhe que isto não são dois euros. São cem escudos. Já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E ando nisto há um mês… Até já deixei a porra da moeda misturada na gorjeta do restaurante onde costumo almoçar, Mas no dia seguinte, ao trazerem-me a bandeja com o troco, adivinhem quem lá estava. Exacto. O C(…) do Pedro Nunes mais a P(…) da sua esfera armilar, aconchegados no aro cor de ferrugem, da República Portuguesa, que teima em perseguir-me. Ao pousar a bandeja do troco, o empregado disse-me, chispando faíscas pelos olhos:
- Ouve lá, pá… Ontem deixaste isto na gorja? Isto não são dois euros, pá. É uma moeda de cem paus. Esta porcaria já não se usa!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
E tive de repor a gorjeta do dia anterior…
Em desespero de causa, há uns dias, tentei dá-la a um arrumador de automóveis:
- F(…)-se! ´Tás a gozar ou quê? Esta merda não são dois euros, pá... Esta merda é uma moeda de cem paus. Isto já não se usa, c(…)!
- Ó diabo… não querem lá ver que ao receber um troco, num momento de distração, alguém me passou uma moeda de cem paus como sendo dois euros? Ele há coisas…
- Deixa-te mas é de tangas e cospe lá a guita se não queres que te f(…) os vidros ao carro!….
Que isto me sirva de lição: a partir de agora, olhinhos bem abertos, porque o maior cego é aquele que não quer ver…
...mas mais cego do que esse, é aquele que não CONSEGUE mesmo ver!
Está-me cá a parecer que vou levar o Pedro Nunes e a sua esfera armilar a dar um passeio de metro pela baixa…

2 comentários:
Simplesmente hilariante...as lágrimas já escorriam e a barriga já doía de tanto rir...BRILHANTE!!!
P.S: Já experimentaste as portagens?????LOLOLOL
Fica bem...
MP
Da proxima vez k me vieres com a história que me vais pagar e tal, aviso k n aceito moedas.
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