Um dos meus hobbies favoritos sempre foi a leitura. Desde que era apenas um petiz, de nariz sujo e joelhos esfolados, correndo atrás das meninas para lhes levantar as saias e puxar os totós, que adoro ler. Cartazes, outdoors, matrículas, carteiras de fósforos, bulas de medicamentos, ementas no restaurante, jornais e revistas de todo o género, livros e outras coisas que tenham letras, inclusive aquela canja com massinha de letras que a minha mãe fazia. É claro que este gosto não surgiu assim de repente, do género Deus à Virgem Maria: ”Olá giraça… ´Tás boa? Então toma lá…” e passados nove meses foi o que se viu. Não. O meu gosto pela leitura foi crescendo gradualmente. Primeiro os livros do Tio Patinhas, depois os já clássicos “Uma aventura”, “Os Cinco”, “Victoria´s Secret” e “Catálogo La Redoute”. Com o passar dos anos, à medida que cresci e amadureci, os meus gostos evoluiram naturalmente: Miguel Esteves Cardoso, Mário de Carvalho, Eça de Queirós, Maxmen, Hemingway, Steinbeck, revistas de "Fotografias artísticas de nús femininos", e o meu favorito, Gabriel García Márquez. Ocasionalmente ainda dou uma mirada ao “Victoria´s Secret” e aos artigos de opinião do Nuno Rogeiro. Mas muito esporadicamente… Gosto mesmo muito de ler. E escrever. Agrada-me que as pessoas possam saber o que penso sem ter de falar com elas e aturar os seus olhos esbugalhados, fixos em mim, como quem diz “se te aproximas juro que te espeto a chave do carro na traqueia!”, sempre que exponho os meus pontos de vista. Por isso escrevo neste espaço que vocês dois visitam com alguma regularidade. Eu sei que não escrevo com a mesma profundidade de uma Margarida Rebelo Pinto, mas também não cometo a barbaridade de cobrar dinheiro para que alguém leia o que escrevo, não é?
A democratização dos espaços de opinião foi a melhor coisa que podia ter acontecido depois do enorme talento da Soraia Chaves.
Mas desde há alguns anos para cá, surgiu um tipo de leitura que, francamente, é aquela que mais me seduz e inspira. Não. Não são os classificados do “Correio da Manhã”, se bem que essa também não seja uma leitura de desprezar…
Aquilo que eu mais gosto de ler actualmente são os SMS de Rodapé, que passam nos programas de televisão, do Goucha à Fátima Lopes.
Que fabulosa invenção! Quem teve essa brilhante ideia devia, pelo menos ser nomeado, já não digo ganhar, mas nomeado para o Nobel da Literatura. Perco horas a ler as mensagens que passam naquelas barras azuis e cor de rosa. Deliro com cada letra, cada palavra, cada oração mal construída e cada erro ortográfico, como se fossem meus. E emociono-me com o conteúdo… Alegro-me quando é caso disso… Preocupa-me realmente se a Tininha de Moimenta da Beira conseguiu finalmente encontrar a “colega Inês que foi da minha turma em 1987 na escola S. Julião”. Ou se o J. P. Fragoso conseguiu que o seu pai, que ele não vê desde 1996, ligasse para o número que passou a uma velocidade estonteante.
Mas nem só de desencontros vivem os SMS de Rodapé. Alguns são bem amorosos: “É só para dizer ao Tó que ele é o homem da minha vida”, diz A. C. de Lisboa. É algo de verdadeiramente inspirador. Note-se que a A. C. não se declarou pessoalmente ao Tó. Ela usou um megafone, e gritou para quem quisesse ouvir, na esperança de que alguém fosse dizer ao Tó que ele é o Homem da sua vida, assim do género: “Eh pá, se o virem digam-lhe que ele é o Homem da minha vida!”, “Oh Tó! Sabes que és o Homem da vida da A. C.?”, “O quê? Não me digas!..” E que dizer do arrebatamento com que Luís C. parece gritar, para isso escrevendo em letras capitais “JULIANA AMO TE A TI E A NOSSA FILHA MAIS LINDA DO MUNDO”, borrifando-se completamente para todas as regras parvas de acentuação, que se tornam um empecilho na sua declaração de amor à (espero) esposa e filha mais linda do mundo. Atenção! Não é nenhuma das outras filhas! É só a mais linda do mundo.
“Reunião do CC Caçadores 71-73 Guiné. Inscreve-te!”. Também me dá vontade de ligar para o número que aparece a seguir à mensagem para me inscrever, ao imaginar um hercúleo sargento reservista, mal cabendo dentro da farda coçada e remendada, de barriga proeminente, gritando a plenos pulmões e comendo as últimas sílabas de cada palavra, este grito de guerra, parecendo incentivar os seus Homens a conquistar o mundo. Ou a Chanfana de Cabrito, tanto faz.
De vez em quando, tenho a felicidade de ler qualquer coisa assim mais a dar para o género Nicholas Sparks: “Meu amor, desculpa tudo o que te disse e te fiz” implora o Nuno S. de Lisboa à sua amada. Nestes casos devia ser obrigatório responder pelo mesmo meio: é angustiante não saber como acaba a história. Será que ela perdoou o que o pobre Nuno S. lhe fez e disse num daqueles momentos de raiva cega e ciúme louco? Ou o mandou dar uma curva? Gostava de ler um SMS de Rodapé pouco tempo depois que dissesse: “É claro que te perdoo meu amor, meu bombom. Só não tornes a fazer isso outra vez, está bem?” ou, na pior das hipóteses: “Vai-te lixar ó meu! Agora vens tarde! Já estou com o Frederico T., de Caxias!”.
É claro que no meio de toda esta biblioteca também se encontram livros policiais, de aventura e de princesas: “Procuro principe. bond_girl@hotmail.com”. Existe para aí algum destemido que queira arrancar esta donzela em apuros das garras desse horrível vilão que é o James Bond?
E que dizer da leitura desportiva? “Forca portugal. Vamos ser campioes” gritava o Ricardo R. no fim do Portugal vs. Holanda do último mundial. OK. Não fomos campeões nem campioes. Mas também não acabámos na forca como exigia o amigo Ricardo. E não foi por falta de apoio que acabámos em quarto lugar, como se comprovou com o grito da “Pandilha do barril” de Tomar: “O Quaresma devia ter ido ao mundial mas assim também ganhamos”.
Ora ainda bem que estamos todos satisfeitos.
A cultura está ao alcance de todos, bastando para isso ver a “Tertúlia Cor de Rosa” no programa da Fátima Lopes. Ou do Goucha. Quais “Prós e Contras”! A Maria Elisa não tem a Maya, nem o João Malheiro, que note-se, evoluiu bastante na carreira desde os tempos em que, como Director de Comunicação do Benfica, gritava: “Deixem jogar o Mantorras!”.
Acabaram-se os tempos de iliteracia em Portugal. Seremos todos iluminados por este novo espírito Renascentista dos SMS de Rodapé.
Agora se me dão licença, vou mandar um mail à bond_girl, porque me parece que a coitadinha está em apuros.
A democratização dos espaços de opinião foi a melhor coisa que podia ter acontecido depois do enorme talento da Soraia Chaves.
Mas desde há alguns anos para cá, surgiu um tipo de leitura que, francamente, é aquela que mais me seduz e inspira. Não. Não são os classificados do “Correio da Manhã”, se bem que essa também não seja uma leitura de desprezar…
Aquilo que eu mais gosto de ler actualmente são os SMS de Rodapé, que passam nos programas de televisão, do Goucha à Fátima Lopes.
Que fabulosa invenção! Quem teve essa brilhante ideia devia, pelo menos ser nomeado, já não digo ganhar, mas nomeado para o Nobel da Literatura. Perco horas a ler as mensagens que passam naquelas barras azuis e cor de rosa. Deliro com cada letra, cada palavra, cada oração mal construída e cada erro ortográfico, como se fossem meus. E emociono-me com o conteúdo… Alegro-me quando é caso disso… Preocupa-me realmente se a Tininha de Moimenta da Beira conseguiu finalmente encontrar a “colega Inês que foi da minha turma em 1987 na escola S. Julião”. Ou se o J. P. Fragoso conseguiu que o seu pai, que ele não vê desde 1996, ligasse para o número que passou a uma velocidade estonteante.
Mas nem só de desencontros vivem os SMS de Rodapé. Alguns são bem amorosos: “É só para dizer ao Tó que ele é o homem da minha vida”, diz A. C. de Lisboa. É algo de verdadeiramente inspirador. Note-se que a A. C. não se declarou pessoalmente ao Tó. Ela usou um megafone, e gritou para quem quisesse ouvir, na esperança de que alguém fosse dizer ao Tó que ele é o Homem da sua vida, assim do género: “Eh pá, se o virem digam-lhe que ele é o Homem da minha vida!”, “Oh Tó! Sabes que és o Homem da vida da A. C.?”, “O quê? Não me digas!..” E que dizer do arrebatamento com que Luís C. parece gritar, para isso escrevendo em letras capitais “JULIANA AMO TE A TI E A NOSSA FILHA MAIS LINDA DO MUNDO”, borrifando-se completamente para todas as regras parvas de acentuação, que se tornam um empecilho na sua declaração de amor à (espero) esposa e filha mais linda do mundo. Atenção! Não é nenhuma das outras filhas! É só a mais linda do mundo.
“Reunião do CC Caçadores 71-73 Guiné. Inscreve-te!”. Também me dá vontade de ligar para o número que aparece a seguir à mensagem para me inscrever, ao imaginar um hercúleo sargento reservista, mal cabendo dentro da farda coçada e remendada, de barriga proeminente, gritando a plenos pulmões e comendo as últimas sílabas de cada palavra, este grito de guerra, parecendo incentivar os seus Homens a conquistar o mundo. Ou a Chanfana de Cabrito, tanto faz.
De vez em quando, tenho a felicidade de ler qualquer coisa assim mais a dar para o género Nicholas Sparks: “Meu amor, desculpa tudo o que te disse e te fiz” implora o Nuno S. de Lisboa à sua amada. Nestes casos devia ser obrigatório responder pelo mesmo meio: é angustiante não saber como acaba a história. Será que ela perdoou o que o pobre Nuno S. lhe fez e disse num daqueles momentos de raiva cega e ciúme louco? Ou o mandou dar uma curva? Gostava de ler um SMS de Rodapé pouco tempo depois que dissesse: “É claro que te perdoo meu amor, meu bombom. Só não tornes a fazer isso outra vez, está bem?” ou, na pior das hipóteses: “Vai-te lixar ó meu! Agora vens tarde! Já estou com o Frederico T., de Caxias!”.
É claro que no meio de toda esta biblioteca também se encontram livros policiais, de aventura e de princesas: “Procuro principe. bond_girl@hotmail.com”. Existe para aí algum destemido que queira arrancar esta donzela em apuros das garras desse horrível vilão que é o James Bond?
E que dizer da leitura desportiva? “Forca portugal. Vamos ser campioes” gritava o Ricardo R. no fim do Portugal vs. Holanda do último mundial. OK. Não fomos campeões nem campioes. Mas também não acabámos na forca como exigia o amigo Ricardo. E não foi por falta de apoio que acabámos em quarto lugar, como se comprovou com o grito da “Pandilha do barril” de Tomar: “O Quaresma devia ter ido ao mundial mas assim também ganhamos”.
Ora ainda bem que estamos todos satisfeitos.
A cultura está ao alcance de todos, bastando para isso ver a “Tertúlia Cor de Rosa” no programa da Fátima Lopes. Ou do Goucha. Quais “Prós e Contras”! A Maria Elisa não tem a Maya, nem o João Malheiro, que note-se, evoluiu bastante na carreira desde os tempos em que, como Director de Comunicação do Benfica, gritava: “Deixem jogar o Mantorras!”.
Acabaram-se os tempos de iliteracia em Portugal. Seremos todos iluminados por este novo espírito Renascentista dos SMS de Rodapé.
Agora se me dão licença, vou mandar um mail à bond_girl, porque me parece que a coitadinha está em apuros.

2 comentários:
Pá, assim tornas dificl que estes gajos não percebam que tou a ler blogs, é que o trabalho não me dá ataques de riso e lagrimas de tanto conter as gargalhadas.
Pelo menos quando ando medicado...
Abraços
Pois é rapaz. Por isso é que eu não sou padeiro! Não é tanto pelos sms mas mais pelos programas em si.. Mas a plebe gosta é disto! Pseudo-programas matinais (e não só) para saciar a malta que não tem nada que fazer. E como o poder manipulativo da televisão pode ser aterrador.. Gostei do post. Aliás do Blog.
Fica bem!
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