E pronto. O Benfica lá voltou a perder. Sempre que isto acontece parece que assistimos ao deprimente espectáculo de alguém que toma dois ou três Viagras, e quando chega a hora da verdade, pffffffff… o balão vaza, a moçoila volta a apertar o sutiã, vai buscar as cuequinhas aos joelhos, olhando com desdém para o (quase) parceiro, prostrado de joelhos no chão, com a cara escondida nas mãos e os boxers dos ursinhos – aqueles que supostamente lhe dão sorte – enrolados à volta dos tornozelos tapados com meias brancas.
É a este triste espectáculo (do qual eu tenho conhecimento, mas só porque me contaram como é) que se assemelham os “pré” e os “pós” jogos do Benfica em alguns cafés, tascos, bares, restaurantes e “bares alternativos” onde os caminhos errantes da minha vida me levam.
Tomemos como exemplo o jogo de ontem. Todo o dia irradiou confiança vinda de todos os azimutes deste grande reino de adeptos do “Glorioso” que é Portugal. Todas as estradas, rotundas, auto-estradas e IC´s transbordavam confiança. Antes de começar a jogatana, digna de uma final de campeonato do mundo, ou não fosse o Benfica contra o PSG de França, que quase luta para não descer de divisão, decidi fazer um reconhecimento territorial da qualidade da cerveja que se andava a vender em certos cafés. Que ambiente magnífico! Homens e mulheres de todas as idades, cores e feitios, com e sem bigode, crianças, alegres e trigueiras, com e sem bigode, cães, gatos, papagaios e até uma esplêndida criação de lagartixas – apesar da cor – todos festejavam a esmagadora vitória que iriam festejar daí a duas horas. A cerveja corria, fluida, como uma cascata, os tremoços eram engolidos com casca, voavam cachecóis, bandeiras, galhardetes, copos, garrafas e sapatos. Parecia a Feira do Relógio em dia de rusga da ASAE.
A televisão começa a transmitir as imagens dos jogadores de ambas as equipas a subir ao relvado. Todos se sentam. Acendem-se cigarros e alguém pergunta com quem é que o Sporting vai jogar. Há quem comente, em tom jocoso, o resultado do Porto. "O Chelsea não é o PSG", alguém responde.
No dia seguinte será encontrado degolado numa sarjeta, com uma pena de milhafre em cima do coração.
Os capitães cumprimentam-se. Pauleta e Simão.
“O Pauleta é doente do Benfica desde pequeno. Não nos vai marcar um golo!” grita uma voz roufenha do fundo do café. É impressionante a grandeza do Benfica. Segundo os seus adeptos, toda a gente é doente do Benfica desde o momento da concepção: sabiam que o Figo vai para as Arábias porque se voltasse para Portugal, só se fosse para o Benfica, e o Benfica é que não o quis? É verdade. E o Vítor Baía ainda não pendurou as botas porque continua à espera de ir para o Benfica! O tipo é vermelho desde aqueles longínquos tempos em que jogava a titular. Jorge Costa é outro. Cem por cento Benfiquista. Paulinho Santos, e Manuel José, antigo ponta de lança do Sporting. Benfiquistas. Dos saudosos Cinco Violinos, pelo menos quatro e meio eram Benfiquistas. Balakov e Iordanov, que ainda hoje são sócios com quotas pagas do Sporting, vieram para Portugal nos anos noventa porque conheciam a grandeza do "Glorioso". João Pinto, antiga glória do Porto... Adivinharam... Até Pinto da Costa! Não corrompeu toda aquela gente para beneficiar o Porto. Não se iludam. Foi para prejudicar o Benfica e todos os seus presidentes, fazê-los passar por humilhações e desgraças para ir para lá ele, que é do Benfica desde que se lembra… Ele e o Fernando Madureira, líder dos Super Dragões porque não o quiseram nos No Name Boys.
Começa o jogo. Aquele que se passa dentro do campo. “O Nuno Gomes devia ´tar a jogar de início!”. “O Ninja também é bom!”. Simão Sabrosa, aquele que apesar de ter passado anos a afirmar ser do Sporting desde criança, mas que é, na realidade, mais vermelho que uma caixa de Marlboro, marca um golo. É a loucura! O Benfica já ganhou a Taça Uefa! Alguém manda abrir oito minis e uma garrafa de Raposeira. “Mais tremoços!”. “´Tá calado car****! Olha que apanhas no focinho!”. “Dá aí um cigarro!”. As manifestações de alegria sucedem-se. Ouvem-se buzinas e tachos nas varandas. Daqui a nove meses teremos novo “Baby Boom”. Os franceses marcam o golo do empate. Uma névoa abate-se sobre aqueles rostos escarlates de tanto gritar e emborcar minis. Na mesa do canto suspende-se o concurso de arrotar o alfabeto: “Quero lá saber que tenhas chegado ao M! Fo**-se!”. “Calma, que a gente ainda marca outro” grita uma voz conciliadora. Segundo golo dos franceses. Pauleta. “Ai o filhadap***…”. Aquele que há dez minutos era "um ganda benfiquista" e ainda fazia falta à Selecção: “Quais Hélder Postiga, quais car****! O Pauleta é que é um grande jogador!”, havia cometido um sacrilégio contra a maior religião do mundo. Silêncio gélido em todo o Portugal. Aposto que até a Auto-Europa parou as linhas de produção. Um dos grandes bastiões da águia cometeu uma traição! Pauleta marcou ao Benfica, provocando alegria a quatro milhões de portugueses e miséria a todos os outros, sei lá… Vinte milhões? Já contando com Newark. Tornou feliz um maior número de portugueses do que quando jogava na Selecção. “Sim, porque goleadas ao Azerbeijão, também eu…”. “No campeonato do mundo ´tá quieto. É por ser o Benfica! Todos querem marcar ao Benfica!”. Segundo me apercebi, é difícil marcar golos ao Benfica e todo o profissional da bola digno desse nome, sonha, um dia marcar um golo ao Benfica. É uma espécie de Santo Graal do futebol. Todo o café grita quando o Léo faz um voo picado na área do Benfica para cima de um jogador do PSG “Não é nada, não é nada”. “Se fosse do Sporting, vocês diziam já que era penálti para três vermelhos e suspensão até 2009!” grita um sportinguista muito pouco apegado à vida. Fulminado por dezenas de olhos raiados de sangue, desapareceu sem deixar rasto antes de entrar o Beto. Entra Nuno Gomes. “Fod**-se! Já cá faltava a Floribela!”. “Hoje é o dia da Mulher”. “O Derlei não vale uma beata!”. “Ainda há bocado disseste que era bom…”. “Eu!!??? Deves ´tar enganado…!”.
Espero que a Maria João Morgado tenha visto este jogo. É que parece que foi o Pinto da Costa que comprou o jogador francês para que este “fod*** o Luisão”.
Fim do jogo. O impensável aconteceu: o Benfica perdeu. Olhando para aqueles fiéis, desiludidos, cofiando os bigodes que tapam o lábio superior com uma mão e enrolando na outra o crucifixo pendurado no pescoço, vem-me à cabeça a imagem do desgraçado prostrado no chão, com os boxers pelos tornozelos, e a rapariga a sair, batendo com a porta e resmungando qualquer coisa sobre a reunião de Tupperware a que faltou para ir “para casa deste gajo para isto…”. É pior que um coito interrompido. Estranhamente, a equipa francesa não se assustou com as camisolas vermelhas, como garantiam alguns que iria acontecer: “Até se borram quando virem a águia!”. Tiveram o desplante de ganhar ao Benfica. Atrevidotes. Um pequeno grupo de gauleses resiste ainda e sempre ao invasor. Mas segundo pude constatar, “A gente cá fo** os gajos! Não aguentam o inferno da Luz”. Eu acredito que sim.
Se houve coisa que eu aprendi, é que a malta não se precipita nos prognósticos.
É a este triste espectáculo (do qual eu tenho conhecimento, mas só porque me contaram como é) que se assemelham os “pré” e os “pós” jogos do Benfica em alguns cafés, tascos, bares, restaurantes e “bares alternativos” onde os caminhos errantes da minha vida me levam.
Tomemos como exemplo o jogo de ontem. Todo o dia irradiou confiança vinda de todos os azimutes deste grande reino de adeptos do “Glorioso” que é Portugal. Todas as estradas, rotundas, auto-estradas e IC´s transbordavam confiança. Antes de começar a jogatana, digna de uma final de campeonato do mundo, ou não fosse o Benfica contra o PSG de França, que quase luta para não descer de divisão, decidi fazer um reconhecimento territorial da qualidade da cerveja que se andava a vender em certos cafés. Que ambiente magnífico! Homens e mulheres de todas as idades, cores e feitios, com e sem bigode, crianças, alegres e trigueiras, com e sem bigode, cães, gatos, papagaios e até uma esplêndida criação de lagartixas – apesar da cor – todos festejavam a esmagadora vitória que iriam festejar daí a duas horas. A cerveja corria, fluida, como uma cascata, os tremoços eram engolidos com casca, voavam cachecóis, bandeiras, galhardetes, copos, garrafas e sapatos. Parecia a Feira do Relógio em dia de rusga da ASAE.
A televisão começa a transmitir as imagens dos jogadores de ambas as equipas a subir ao relvado. Todos se sentam. Acendem-se cigarros e alguém pergunta com quem é que o Sporting vai jogar. Há quem comente, em tom jocoso, o resultado do Porto. "O Chelsea não é o PSG", alguém responde.
No dia seguinte será encontrado degolado numa sarjeta, com uma pena de milhafre em cima do coração.
Os capitães cumprimentam-se. Pauleta e Simão.
“O Pauleta é doente do Benfica desde pequeno. Não nos vai marcar um golo!” grita uma voz roufenha do fundo do café. É impressionante a grandeza do Benfica. Segundo os seus adeptos, toda a gente é doente do Benfica desde o momento da concepção: sabiam que o Figo vai para as Arábias porque se voltasse para Portugal, só se fosse para o Benfica, e o Benfica é que não o quis? É verdade. E o Vítor Baía ainda não pendurou as botas porque continua à espera de ir para o Benfica! O tipo é vermelho desde aqueles longínquos tempos em que jogava a titular. Jorge Costa é outro. Cem por cento Benfiquista. Paulinho Santos, e Manuel José, antigo ponta de lança do Sporting. Benfiquistas. Dos saudosos Cinco Violinos, pelo menos quatro e meio eram Benfiquistas. Balakov e Iordanov, que ainda hoje são sócios com quotas pagas do Sporting, vieram para Portugal nos anos noventa porque conheciam a grandeza do "Glorioso". João Pinto, antiga glória do Porto... Adivinharam... Até Pinto da Costa! Não corrompeu toda aquela gente para beneficiar o Porto. Não se iludam. Foi para prejudicar o Benfica e todos os seus presidentes, fazê-los passar por humilhações e desgraças para ir para lá ele, que é do Benfica desde que se lembra… Ele e o Fernando Madureira, líder dos Super Dragões porque não o quiseram nos No Name Boys.
Começa o jogo. Aquele que se passa dentro do campo. “O Nuno Gomes devia ´tar a jogar de início!”. “O Ninja também é bom!”. Simão Sabrosa, aquele que apesar de ter passado anos a afirmar ser do Sporting desde criança, mas que é, na realidade, mais vermelho que uma caixa de Marlboro, marca um golo. É a loucura! O Benfica já ganhou a Taça Uefa! Alguém manda abrir oito minis e uma garrafa de Raposeira. “Mais tremoços!”. “´Tá calado car****! Olha que apanhas no focinho!”. “Dá aí um cigarro!”. As manifestações de alegria sucedem-se. Ouvem-se buzinas e tachos nas varandas. Daqui a nove meses teremos novo “Baby Boom”. Os franceses marcam o golo do empate. Uma névoa abate-se sobre aqueles rostos escarlates de tanto gritar e emborcar minis. Na mesa do canto suspende-se o concurso de arrotar o alfabeto: “Quero lá saber que tenhas chegado ao M! Fo**-se!”. “Calma, que a gente ainda marca outro” grita uma voz conciliadora. Segundo golo dos franceses. Pauleta. “Ai o filhadap***…”. Aquele que há dez minutos era "um ganda benfiquista" e ainda fazia falta à Selecção: “Quais Hélder Postiga, quais car****! O Pauleta é que é um grande jogador!”, havia cometido um sacrilégio contra a maior religião do mundo. Silêncio gélido em todo o Portugal. Aposto que até a Auto-Europa parou as linhas de produção. Um dos grandes bastiões da águia cometeu uma traição! Pauleta marcou ao Benfica, provocando alegria a quatro milhões de portugueses e miséria a todos os outros, sei lá… Vinte milhões? Já contando com Newark. Tornou feliz um maior número de portugueses do que quando jogava na Selecção. “Sim, porque goleadas ao Azerbeijão, também eu…”. “No campeonato do mundo ´tá quieto. É por ser o Benfica! Todos querem marcar ao Benfica!”. Segundo me apercebi, é difícil marcar golos ao Benfica e todo o profissional da bola digno desse nome, sonha, um dia marcar um golo ao Benfica. É uma espécie de Santo Graal do futebol. Todo o café grita quando o Léo faz um voo picado na área do Benfica para cima de um jogador do PSG “Não é nada, não é nada”. “Se fosse do Sporting, vocês diziam já que era penálti para três vermelhos e suspensão até 2009!” grita um sportinguista muito pouco apegado à vida. Fulminado por dezenas de olhos raiados de sangue, desapareceu sem deixar rasto antes de entrar o Beto. Entra Nuno Gomes. “Fod**-se! Já cá faltava a Floribela!”. “Hoje é o dia da Mulher”. “O Derlei não vale uma beata!”. “Ainda há bocado disseste que era bom…”. “Eu!!??? Deves ´tar enganado…!”.
Espero que a Maria João Morgado tenha visto este jogo. É que parece que foi o Pinto da Costa que comprou o jogador francês para que este “fod*** o Luisão”.
Fim do jogo. O impensável aconteceu: o Benfica perdeu. Olhando para aqueles fiéis, desiludidos, cofiando os bigodes que tapam o lábio superior com uma mão e enrolando na outra o crucifixo pendurado no pescoço, vem-me à cabeça a imagem do desgraçado prostrado no chão, com os boxers pelos tornozelos, e a rapariga a sair, batendo com a porta e resmungando qualquer coisa sobre a reunião de Tupperware a que faltou para ir “para casa deste gajo para isto…”. É pior que um coito interrompido. Estranhamente, a equipa francesa não se assustou com as camisolas vermelhas, como garantiam alguns que iria acontecer: “Até se borram quando virem a águia!”. Tiveram o desplante de ganhar ao Benfica. Atrevidotes. Um pequeno grupo de gauleses resiste ainda e sempre ao invasor. Mas segundo pude constatar, “A gente cá fo** os gajos! Não aguentam o inferno da Luz”. Eu acredito que sim.
Se houve coisa que eu aprendi, é que a malta não se precipita nos prognósticos.
